Junior Mano resolveu levar ao pé da letra o slogan do
governo. Não para de andar, não para de conversar, não para de visitar município, não para de segurar apoios, não para de reafirmar compromisso.E, sobretudo, não para de avisar à base governista que sua candidatura não é enfeite de mesa nem peça decorativa de convenção.
Enquanto parte do governo tenta fechar a chapa como planilha em gabinete refrigerado, Mano está fazendo política no território. Vai ao Interior, conversa com prefeitos, mede a temperatura das bases, organiza lideranças e mostra que eleição não se decide apenas por desejo de cúpula. Decide-se com estrada, poeira, café frio e prefeito querendo saber se a palavra dada ainda vale.
Todos querem Cid Gomes em lugar de Mano: Camilo, Elmano, o presidente da Assembleia. Deputados do PSB foram mobilizados quase em clima de coral: “Volta, Cid, volta”. Faltou apenas a trilha de Star Wars e alguém anunciar: “Você é nossa única esperança”.
Mas Cid respondeu com uma condição simples, devastadora: tudo bem, desde que convençam Junior Mano a sair do caminho. Aí a política deixou de ser filme épico e virou novela das nove.
Quando Camilo afirmou que a chapa estava definida e que Cid seria o candidato, Mano respondeu com um vídeo de 36 prefeitos em apoio à sua candidatura. Não era Beyoncé, mas deve ter soado como rock no Palácio da Abolição.
Mano diz que sua candidatura não é apenas dele. É de um grupo. Isso muda tudo. Candidato isolado pode ser convencido com afago, ameaça, promessa ou cargo. Grupo exige conversa, respeito e reciprocidade. Quando prefeitos gravam vídeo e lideranças repetem apoio, não se trata mais de vaidade pessoal. Trata-se de construção política. E compromisso, em política, é como boleto: pode até atrasar, mas não desaparece.
Mano, apesar de jovem, é ousado, inteligente, perseverante. E isso incomoda. Incomoda muita gente. Pode vir apelo de Camilo, aceno de Elmano, pressão partidária, oferta alternativa e cochicho de bastidor. Ele segue. E obriga todos a admitir que a chapa não está pronta só porque alguém disse que estava.
O impasse é elegante e venenoso. Se Cid aceita disputar sem Mano, parece roer a corda. Se mantém a palavra, pressiona Camilo e Elmano. Se fica em cima do muro, descobre que muro, em política, não é lugar de estadista. É lugar de pichação.
Júnior Mano tem o couro duro. Não abre nem para o trem. Ops! O último que disse isso saiu do trilho, largou tudo e foi ser ministro para usar outro meio de transporte – avião da FAB.
Mano virou um problema que o governo não consegue resolver. Um herói da resistência para uns. Uma enxaqueca para outros.
O certo é que Junior Mano não para.
E quanto mais ele não para, mais gente na base governista para de dormir. LUCIANO CLÉVER
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