O Senado Federal tem sido apontado, a nível nacional, como uma disputa prioritária para o Partido Liberal, o que tem
significado, em muitos estados, uma disputa interna sobre quem terá a pré-candidatura a senador nas eleições de 2026 pelo PL.Esse é o cenário do Ceará, onde os nomes postos são do deputado estadual Alcides Fernandes (PL) e da vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL).
Alcides tem recebido apoio dos colegas do PL Ceará, inclusive sendo apontado como único pré-candidato do partido ao Senado no estado. A definição ocorreu em reunião realizada no final de março pelo presidente estadual do partido, o deputado federal André Fernandes (PL), filho de Alcides.
"Está consolidado, a gente recebeu o aplauso de todos que estavam presentes. Na verdade, o assunto era deputado estadual e federal e foi sondado, falaram o nome do senador. Fui aplaudido de pé, recebo com humildade tudo isso", garantiu Alcides Fernandes, logo após a reunião.
A decisão, contudo, foi contestada por Priscila Costa. "Desconheço qualquer definição sobre candidatura única", afirmou Priscila Costa ao PontoPoder, acrescentando ainda que há "tentativas de silenciamento" da sua pré-candidatura.
"Se há candidato único, se há um nome já sacramentado, onde está o pronunciamento do presidente nacional, Valdemar Costa Neto, sobre isso? Ou do nosso futuro presidente, Flávio Bolsonaro? Posso afirmar que sigo mais firme do que nunca", ressaltou. "Se alguém acha que vai me vencer pelo cansaço, está muito enganado".
O PontoPoder tentou conversar com Alcides Fernandes sobre a pré-candidatura ao Senado, mas não houve retorno.
O embate interno é um dos "sinais de fragmentação" do partido, pontua a cientista política e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), Mariana Dionísio, entre uma ala "mais conservadora e entusiasta da família Bolsonaro" e outra "mais pragmática".
"O que estamos observando no PL cearense é uma tensão entre dois centros de poder com lógicas distintas: o comando local, sólido nas mãos de André Fernandes, e o núcleo bolsonarista de Brasília, que opera com sua própria agenda", afirma.
Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), acrescenta que essa divisão interna reflete justamente uma disputa entre a busca de "ampliação de poder" de André Fernandes, grande fiador da pré-candidatura de Alcides Fernandes, e a tentativa de fortalecimento de uma nova liderança, que é a de Priscila Costa.
"Entra em jogo uma disputa então pela ampliação da liderança do André. Obviamente o componente familiar é mais confiável a ele, o seu pai, do que alguém que tem uma trajetória independente", explica o pesquisador.
"O grupo do André tem ciência de que a Priscila tem como fazer voos solitários. Ela não é dependente do André. Ela chegou na política antes do André. O Alcides vai precisar que o André peça voto para ele, mas a Priscila não. O André precisa de alguém que seja candidato ao Senado sob a sua liderança. Não é o caso da Priscila, que tende a construir a sua liderança".
Lançamento das pré-candidaturas ao Senado
Apesar de terem sido lançadas ainda em 2025, e com menos de dois meses de diferença, a construção da pré-candidatura de Alcides Fernandes e Priscila Costa é resultado de articulações bem distintas.
Alcides Fernandes foi citado ainda em março de 2025 como pré-candidato ao Senado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), durante entrevista em podcast.
Desde então, o nome dele tem sido defendido não apenas pelo filho como por outras lideranças do PL Ceará e também aliados de outros partidos da oposição ao Governo Elmano de Freitas, como União Brasil e PSDB — o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), cotado como pré-candidato ao Governo do Ceará, disse que "esperar votar" em Alcides para senador.
Priscila Costa, por sua vez, teve a pré-candidatura ao Senado lançada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em junho de 2025. O momento também contou com o apoio de Valdemar Costa Neto, mas pegou de surpresa os colegas de partido no Ceará.
"A Priscila não teve nenhuma conversa conosco", disse Dra. Silvana na época. No mesmo período, figuras, como o deputado estadual Carmelo Neto (PL) e Dr. Jaziel, também reforçaram que Alcides Fernandes era o único pré-candidato do partido ao Senado. “É prego batido e ponta virada”, reforçou Alcides ainda em 2025.
Alcides Fernandes como único pré-candidato ao Senado voltou, agora, a ser reforçado em reunião do PL Ceará. O tema foi levado a Flávio Bolsonaro, no início de abril, durante reunião realizada em Brasília, com lideranças cearenses e da cúpula nacional do PL — Priscila Costa não esteve presente no ato, que marcou a filiação de novos integrantes do partido.
Dias depois, na última terça-feira (7), Priscila esteve com Flávio Bolsonaro e voltou a reforçar a própria pré-candidatura ao Senado, apesar da sinalização feita pelo PL Ceará, em publicações nas redes sociais. No Instagram, a vereadora chegou inclusive a alfinetar os correligionários sobre a decisão.
Ela postou, por exemplo, a frase de um seguidor que dizia: "Copa sem Neymar é como eleição ao Senado sem Priscila, é golpe". "De quem ela está falando que é golpe? Não é golpe do PT, não é golpe do Elmano. É golpe de quem pode escolhê-la ou não para a eleição. Então, nesse caso, ela está apontando como golpista os seus próprios colegas de partido", afirma Freitas.
"A questão é que a pré-candidatura de Priscila Costa não nasceu de articulações locais, mas sim de um projeto construído de fora para dentro", argumenta Dionísio. Um projeto que tem como foco o PL Mulher, presidido por Michelle Bolsonaro.
Disputa por protagonismo no PL
A ex-primeira-dama tem defendido diversos nomes de mulheres para serem candidatas pelo PL ao Senado — em muitos casos, envolvendo uma queda de braço com as lideranças estaduais do partido.
"Enquanto o ex-presidente esteve afastado, sem o mesmo acesso que tinha às redes sociais e sem se reunir com aliados, impossibilitado de arbitrar diretamente os conflitos, emergiram outras circunstâncias: de um lado, Michelle Bolsonaro e seu projeto de protagonismo feminino bolsonarista; do outro, Flávio Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, priorizando pragmatismo eleitoral e alianças regionais. (...) O Ceará, agora, é terreno que expõe com clareza uma guerra por quem tem mais influência no pós-bolsonarismo".
O afastamento de Bolsonaro traz ainda outra consequência: o fato de que a disputa interna não é 'apenas' pela pré-candidatura. "Não é apenas uma candidatura da direita, do PL, mas é também, quem dos dois for escolhido, vai dizer que é o escolhido de Bolsonaro", pontua Freitas.
O que novamente representa um teste para a liderança de André Fernandes. "O cálculo principal que o André faz é a ameaça à liderança dele. (...) Em um possível êxito eleitoral dela, ela podia ter tal crescimento, penso eu que o André faz esse cálculo, a ponto de secundarizar a liderança dele no Ceará", acrescenta.
Mas existe também, claro, os riscos para a vereadora. "O André já provou para eles que é uma liderança forte, concentradora de poder ao estilo do Bolsonaro", afirma. "Se a Priscila continuar nessa queda de braço, ela pode sofrer o que o Carmelo sofreu, (...) que é ter sido destronado quando ameaçou os interesses do André".
Impacto para a oposição
Emanuel Freitas afirma que existe um empecilho para a pré-candidatura de Priscila Costa no Ceará: "em nenhum momento, até hoje, ela disse que votava no Ciro". "Ela quer ser candidata ao Senado na chapa de oposição, mas não declarou voto ao candidato da oposição ao Governo. Esse é um problema", considera.
Fiadora da pré-candidatura de Priscila Costa ao Senado, Michelle Bolsonaro foi também a responsável por paralisar, pelo menos oficialmente, as articulações de apoio do PL Ceará a Ciro Gomes. O que "demonstrou força de veto real sobre as articulações do partido", defende Dionísio. Mas também fez crescer a resistência interna do PL Ceará ao nome de Priscila Costa.
"O discurso da Michelle ficou entendido como um discurso da Priscila", diz Emanuel Freitas em referência à ex-primeira-dama afirmar que a aliança entre PL e Ciro Gomes no Ceará era "precipitada", em novembro, durante lançamento de pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Ceará.
"Aquele evento que acabou sendo um questionamento aberto à liderança do André, foi colocado na conta da Priscila, (...) o que serviu para cristalizar uma imagem interna para o grupo deles, de que a Priscila não seria alguém confiável, porque quando o interesse dela estivesse em jogo, ela se colocaria contra o André", acrescenta Freitas.
Ao mesmo tempo, existe uma "sinalização ambígua" da cúpula nacional do PL, aponta Dionísio. Isso acontece quando, por exemplo, Valdemar da Costa Neto endossa tanto a pré-candidatura de Priscila como a de Alcides, ou mesmo quando Flávio Bolsonaro, apesar de sinalizar apoio a Alcides, segue fazendo elogios a Priscila.
A falta de uma definição clara do PL pode "começar a produzir danos concretos" a articulação para aliança da oposição no Ceará em torno de Ciro Gomes — uma "arquitetura sofisticada e frágil ao mesmo tempo", resume Dionísio.
"Se Priscila insistir na candidatura, o partido pode chegar às convenções sem uma definição clara. Se o PL compuser a aliança em torno de Ciro, terá que dividir a chapa de senador com outro partido, ficando com apenas uma das vagas, tornando estruturalmente inviável lançar dois nomes próprios. Uma candidatura dupla fragmentaria o voto oposicionista e enfraqueceria justamente o campo que mais precisa de coesão", diz. PONTO DO PODER


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