Um projeto para extração de urânio em Santa Quitéria, no Sertão dos Inhamuns, interior do Ceará, pode ferir direitos
humanos com 28 irregularidades identificadas e impactar diretamente, pelo menos, 11 municípios com material radioativo, além de elevar a radiação do local.O alerta foi feito em relatório do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que também aponta omissões no pedido de autorização para a retirada do minério.
No caso da mineração no Ceará, especialistas e moradores temem prejuízos para a saúde, inclusive com casos de câncer associados à radioatividade, falta de água para consumo humano e para criação de animais. Populações indígenas e quilombolas, como acrescenta o documento, não foram consideradas no pedido de licença.
Por isso, os relatores pedem a suspensão liminar do pedido de licença prévia da extração de minério feito ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). O Consórcio Santa Quitéria, formado pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil e a empresa Galvani Fertilizantes, é o responsável pelo projeto.
CONFIRA AS CIDADES AFETADAS:
- Santa Quitéria
- Itatira
- Monsenhor Tabosa
- Boa Viagem
- Tamboril
- Catunda
- Madalena
- Canindé
- Sobral
- Caucaia
- São Gonçalo do Amarante
Os níveis de radiação na região estão acima do que é natural, conforme o grupo que produziu o relatório técnico. Em Morrinhos, por exemplo, uma medição numa escola indicou uma taxa de dose externa de 0,1 µSv/hora, o que equivale a uma dose efetiva anual 0,87 mSv (Milisievert), bastante próxima do limite máximo permitido, como detalha o documento.
O QUE É E QUAIS OS RISCOS DO URÂNIO
O urânio é encontrado em rochas e pode gerar calor quando a ligação entre os seus prótons e nêutrons é rompida – é a fissão nuclear, que acontece dentro dos reatores das usinas. É com esse calor que se produz energia elétrica, como explica a organização Indústrias Nucleares do Brasil.
O Ministério da Saúde explica que fontes radioativas, como o urânio, podem provocar danos ao ser humano, desde um simples eritema, como uma vermelhidão na pele, até a síndrome aguda da radiação que pode ser letal. As radiações não são perceptíveis aos sentidos humanos.
A ideia do grupo no Ceará é fabricar fertilizantes para produção de alimentos e fosfato bicálcico para ração animal, com investimento superior a R$ 2 bilhões, na Mina de Itatiaia, em Santa Quitéria. Essa é a maior fonte de urânio físsil do Brasil, conforme a Agência Brasileira de Inteligência.
Mas o relatório aponta que o projeto, como foi apresentado ao Ibama, oferece risco para os trabalhadores, população da vizinhança da Mina de Itatiaia e da rota de transporte do material radioativo. Também há possibilidade de contaminação da água, solo e ar.
"Nosso relatório é extremamente técnico e científico, com uma pesquisa relevante, grande parte dessas informações nem pessoas do Governo e do Ibama têm", explica a conselheira do CNDH, Virginia Berriel, que veio ao Ceará para a produção do documento.
Eles pedem o licenciamento desde 2004 para o Ibama e não foi concedido, o Ministério Público Federal entrou com uma ação civil pública e depois eles pediram (a licença) novamente. Em 2019, não conseguiram e em 2020 novamente abriram um pedido de licenciamento, mas certamente não vão conseguirVIRGINIA BERRIELConselheira do CNDH
As audiências públicas e oitivas contaram com a participação de pelo menos 25 pessoas. No assentamento Morrinhos, em Santa Quitéria, participaram representantes de 28 comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, povos de terreiro e pescadores, por exemplo.
Também foram reunidos membros de movimentos sociais, sindicais, professores, pesquisadores e órgãos do sistema de Justiça. Em geral, a população relata medo e incerteza com a retomada da possibilidade de mineração de urânio e fosfato na região.
"Eles temem ter problemas por radiação, lá venta muito e as comunidades ficam logo atrás. Se ganharem o licenciamento pretendem fazer a usina de beneficiamento do urânio logo abaixo dessas comunidades. Então, imagina a preocupação com a saúde dessas pessoas", acrescenta Virginia.
Algumas inconsistências no pedido de autorização também foram apontadas. Por exemplo, na Ficha de Caracterização de Atividade está descrita a produção de 750 mil toneladas de derivados de fosfatados, que são fertilizantes e produtos para alimentação animal, e 1,6 mil toneladas de urânio, com vida útil de 26 anos.
Porém, ao protocolar o Estudo de Impacto Ambiental, o empreendedor afirma que a produção anual estimada será de 1.050 milhão de toneladas de fertilizantes fosfatados e 220 mil toneladas de fosfato bicálcico para alimentação animal e 2.300 toneladas de concentrado de urânio.
CONFIRA 10 IRREGULARIDADES APONTADAS NO DOCUMENTO:
- Omissão dos riscos associados à radiação
- Possível emissão de gases e de radiação nas galerias já perfuradas
- Ruído em nível superior em 10 dos 12 pontos monitorados
- Risco de comprometimento do fornecimento de água para consumo humano e para criação de animais
- Ausência do componente indígena e quilombola
- Presença de espécies potencialmente afetadas pela radiação
- Violação de pelo menos 8 padrões de emissões de poluentes
- Omissão quanto à possível interação entre a emissão de poluentes e a emissão de vapor d'água
- Dados conflitantes quanto à emissão de resíduos sólidos
- Impacto do desembarque portuário e transporte do coque e do enxofre e do embarque concentrado de urânio não foram avaliados
Não existe nenhuma retirada de material radioativo no momento, mas isso já aconteceu na década de 1980 e 1990, quando foram abertas galerias nas rochas e extraído material, que não se sabe como está armazenado, conforme Virginia Berriel.
“Só por isso, o índice de radiação - e foi medido na comunidade de Morrinhos - estava praticamente 4 vezes maior do que o permitido. Então, nós entendemos que tem radiação em toda aquela região", completa.
O Ibama foi questionado na última sexta-feira (18) sobre a avaliação do relatório e que medidas devem ser tomadas a partir das recomendações que priorizam a população e o meio ambiente da região. Até a publicação desta reportagem, porém, não houve resposta.
A assessoria de comunicação do Instituto informou que a demanda do Diário do Nordeste foi enviada para a área técnica, mas não há previsão para o repasse das informações.
Já o Consórcio Santa Quitéria negou qualquer violação aos direitos humanos e informou que não foi notificado oficialmente sobre a publicação do relatório do CNDH, mas que enviou uma carta para os membros do Conselho com detalhes sobre os principais pontos do projeto.
O Consórcio cita a realização de audiências públicas, apresentação ao MPF e visitas às localidades vizinhas ao projeto. Conforme nota enviada, as equipes técnicas tiveram fala negada na 64ª Reunião Ordinária do CNDH, na qual o relatório foi votado.
"Foi possível notar durante a exposição do seu resumo na reunião, diversos equívocos, que já foram amplamente refutados com fatos e dados técnicos apresentados à sociedade civil e protocolados juntos aos órgãos reguladores", destacou.
O Consórcio assegura que o empreendimento será seguro e não representará danos à saúde dos trabalhadores e das pessoas que moram nas localidades vizinhas. Todos os possíveis impactos ambientais foram estudados, e medidas para reduzi-los, controlá-los e mitigá-los serão implementadas
A iniciativa destaca ainda benefícios para a população com o aumento do Produto Interno Bruto (PIB). “Esse crescimento econômico representará melhor qualidade de vida para as pessoas, com mais renda, empregos e arrecadação de impostos pelo poder público”.

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