Escrevi ainda na quinta-feira, 13, depois da divulgação dos números do Datafolha que apontavam vantagem de 19 pontos de Ciro Gomes (PSDB) sobre Elmano de Freitas (PT):
“O que essa combinação de variáveis sugere? Que o cearense tem adotado o voto Lula/Ciro, customizando sua chapa”
Não era propriamente uma novidade, já que o instituto havia indicado em rodada anterior a possibilidade de que uma faixa expressiva do eleitorado lulista no estado tivesse aderido à pré-candidatura do tucano entre março e junho.
Para esse perfil de cearense, conforme o Datafolha, não parece existir crise de consciência política na operação que combina Ciro e Lula na mesma equação eleitoral. Pelo contrário, trata-se de pragmatismo.
Essa junção, contudo, até poderia estar mais frágil agora, em meados de agosto, não fossem dois elementos que têm atuado conjuntamente: as críticas frequentes de Michelle Bolsonaro a Ciro, que não deixam esquecer que foi o PDT que apresentou questionamento ao TSE contra Jair Bolsonaro (PL), resultando na sua inelegibilidade.
E o segundo: a trajetória do próprio Ferreira Gomes, classificado incontáveis vezes como “político de esquerda” pelo senador Eduardo Girão (Novo), o que não impediu que o eleitorado do ex-candidato ao Governo (alçado a vice na chapa de Romeu Zema) migrasse para o ex-ministro.
Logo, Ciro está no melhor dos mundos, ao menos por ora. Uma fração dos lulistas o vê como próximo do presidente, o que ele de fato foi um dia; enquanto os bolsonaristas majoritariamente o enxergam como alguém capaz de derrotar o PT no Ceará, o que ele realmente é hoje.
Até Lula tem se comportado de maneira esquiva quando o assunto é Ciro, como deixou entrever em uma entrevista recente na qual fez ressalvas ao ex-aliado desfiando amenidades, tal como quando censurou um pronunciado “egocentrismo” do tucano – do qual o petista também já se mostrou possuidor.
É nesse quadro que o governismo no Ceará se movimenta, precisando avançar com a estratégia de desgastar Ciro, seja colando-o a figuras de proa do bolsonarismo (não tem funcionando até aqui, mais ainda com André Fernandes fazendo uma campanha autônoma de Alcides), seja recuperando um eleitorado petista que se desgarrou – ação tampouco efetiva no momento.
Nada disso significa, porém, que essas armas continuarão sem produzir efeito quando a campanha engatar a terceira marcha, com propaganda no rádio e na TV e a máquina de governo trombeteando pelas ruas.HENRIQUE ARAUJO/ O POVO
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