Embora não goste, preciso começar retomando parte da coluna de ontem, na qual escrevi que a "grande pergunta" que
a nova rodada da pesquisa Datafolha deveria responder era se Ciro Gomes (PSDB) manteria a dianteira de 15 pontos sobre Elmano de Freitas (PT) na briga pelo Governo, registrada cinco meses atrás.O resultado fala por si: a diferença se ampliou entre o tucano e o petista, agora para 19 pontos, conforme sondagem divulgada nessa quinta, 13. No levantamento, Ciro marca 52% e Elmano, 33%. Em março último, o placar era 47% a 32% para o Ferreira Gomes.
Disso se pode concluir que o ex-ministro se beneficiou diretamente da saída de Eduardo Girão (Novo) do páreo, que é a leitura mais óbvia, mas também que a artilharia do Abolição não tem surtido efeito contra o adversário - tampouco que a performance de Elmano no debate da TV Band lhe assegurou qualquer ganho.
Para o petista, o quadro é preocupante, não somente pelo estirão que se abriu, mas porque, em simultâneo, sua avaliação e aprovação caíram, enquanto o chefe do Executivo segue como o mais rejeitado. Nesse intervalo, Lula (PT) melhorou o desempenho em relação a Flávio Bolsonaro (PL).
O que essa combinação de variáveis sugere? Que o cearense tem adotado o voto Lula/Ciro, customizando sua chapa.
Desafios
No QG petista, a questão principal agora passa a ser uma só: estamos fazendo algo errado, e, se sim, o quê? Elmano começou a pré-campanha investindo fortemente na nacionalização da peleja contra Ciro, o que em alguns momentos pode ter soado como uma estratégia para escapar do debate local e, por tabela, dos problemas que lhe competem resolver (entre os quais o principal é a segurança, de longe seu maior desafio).
Entre seus aliados, era (acho que ainda é) líquido e certo que bastaria associá-lo a Lula para que a mágica acontecesse. Por ora, isso não tem ocorrido. Não digo que a tática esteja errada, talvez apenas a ênfase seja exagerada e acabe deslocando os holofotes do gestor para terceiros (Lula, Camilo Santana e até Evandro Leitão).
Fazia sentido em 2022, mas não agora. Aliás, esse é um aspecto do problema, isto é, havia sempre muita gente atravancando a interlocução de Elmano com seu eleitorado, justo quando o "cabeça" do governo precisava de voz própria. E não apenas nos debates de TV, mas no mandato.
O que fazer
Se 1) a nacionalização não tem mobilizado o eleitorado e 2) o desgaste de colar o bolsonarismo em Ciro não vem impedindo o tucano de alargar a vantagem, o que o candidato do PT deve fazer a partir de domingo, 16, quando começa oficialmente a campanha? Manter o que não tem se mostrado efetivo contra o oponente? Ou reavaliar a estratégia, explorando outros caminhos? Pelo perfil do governismo, é possível que a aposta continue sendo no trinômio Lula/Camilo/Elmano, com energia redobrada no vínculo entre o presidente e o governador. O que é incerto é se esse trunfo já não teria se esgotado.
Tucano na largada
Para Ciro, o cenário de partida é o melhor possível. Menos rejeitado do que Elmano (35% a 21%), vantagem estatística substantiva, mesmo tempo de TV e rádio, volume equilibrado de recursos, entrada no Interior do Estado e muita presença na Capital cearense e nas redes (com dois ex-prefeitos de Fortaleza na majoritária, a saber, Roberto Cláudio e ele próprio, além de Capitão Wagner).
E a chancela dos prefeitos? Nessa Elmano leva a melhor, mas, como Ivo Gomes vem repetindo dia sim e outro também, Lúcio Alcântara era adorado pelas lideranças municipais, e nem por isso se reelegeu. Acrescento: adesão de prefeito é volátil como paixão juvenil.
Se a distância entre Ciro e Elmano se mantiver nesse patamar, nenhum terá pudor de saltar dos braços do governismo para os da oposição. HENRIQUE ARAÚJO/O POVO
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