O período que compreende o fim da janela partidária e o início das convenções que vão homologar as candidaturas das
próximas eleições invariavelmente é marcado por intensas articulações para construção das chapas.O que não faltam são especulações sobre como as principais peças vão se posicionar no tabuleiro eleitoral até o dia de ir às urnas.
Nesta temporada de bastidores agitados, sobram entre os políticos as tentativas de despistar os adversários. Em muitos casos, despontam os chamados no jargão "balões de ensaio", hipóteses lançadas ao ar com intuito inicial de testar reações e verificar movimentos. Por vezes, vale a ressalva, tais hipóteses ganham corpo e o que antes era visto com ceticismo é, de fato, concretizado.
A última semana na cobertura política foi recheada de novos cenários que há até pouco tempo não estavam em discussão. Inclusive com nomes locais cruzando divisas e sendo apontados como possibilidades na disputa nacional. "Além do Senado, Cid é cotado para a vice de Elmano, diz Aldigueri", noticiou O POVO na última quarta-feira, 22, repercutindo declaração em coletiva de Romeu Aldigueri (PSB), presidente da Assembleia Legislativa (Alece) e aliado do senador Cid Gomes (PSB).
No dia seguinte, outra notícia: "Tasso é cotado para vice-presidente na chapa de Caiado, diz deputado", neste caso dando voz ao deputado estadual Felipe Mota (PSDB) e reforçando com declarações do líder tucano na Alece, Cláudio Pinho. Na segunda-feira, 20, a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL) também teve nome especulado para a disputa nacional, com O POVO publicando a matéria "Priscila Costa surge como opção para vice de Flávio Bolsonaro, diz jornalista", atribuindo a fonte da apuração ao jornalista Guilherme Amado, do portal "Amado Mundo".
Em comum a esses títulos, a repetição de um padrão composto por frase entre aspas seguido por um "diz fulano". De uma maneira geral, o que se convencionou chamar de "jornalismo declaratório" é costumeiramente criticado quando é priorizada a afirmação de um agente em detrimento de uma apuração mais detalhada acerca do conteúdo da fala em questão.
A utilização indiscriminada desse tipo de prática em redações mundo afora, em incontáveis casos, acabou por servir como base para que fontes emplacassem discursos de seus interesses sem serem confrontadas a respeito. Por outro lado, é inegável que as declarações são indispensáveis para a construção de uma notícia, não podendo, assim, ser simplesmente ignoradas.
A verificação com outras fontes e a apuração cuidadosa do que é afirmado são os antídotos para os males que o jornalismo declaratório pode ocasionar. Se as falas proferidas têm ou não fundamento, cabe ao jornalismo averiguar isso.
Os antídotos encontrados
Entre os três exemplos acima, o caso envolvendo o senador Cid Gomes é o que tem gerado mais burburinho nos bastidores. Em matéria mais consolidada publicada na edição impressa de quinta-feira, 23, O POVO destacou a repercussão das falas de Romeu Aldigueri com Eudoro Santana. O presidente do PSB no Ceará disse achar "difícil" a possibilidade de Cid entrar como vice na chapa encabeçada pelo governador Elmano de Freitas (PT).
Foi uma boa iniciativa trazer logo naquele momento a repercussão com o dirigente partidário para que a história não ficasse unicamente baseada nas declarações de Aldigueri. Mas os desdobramentos não pararam por aí.
Atual ocupante do posto em questão, Jade Romero (PT) falou ao O POVO sobre a possibilidade de Cid ser candidato a substituí-la. A vice-governadora disse ver a ideia com "satisfação", mas pôs em dúvida o interesse de Cid em embarcar na empreitada. O colunista do O POVO Guilherme Gonsalves publicou na sexta-feira, 24, que o senador e ex-ministro Camilo Santana (PT) já estaria articulando a estratégia de alçar Cid Gomes como vice na chapa de Elmano.
Especulação tucana
A matéria que falou sobre Tasso Jereissati como possível vice na chapa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) para a disputa presidencial careceu de maior robustez.
"Fiquei feliz porque eu vi uma demonstração do PSD de Gilberto Kassab, através de Ronaldo Caiado em um evento no interior do Mato Grosso, dizendo que ele tinha dentro dos seus nomes que gostaria que fosse pré-candidato a vice dele, tá o nome ex-senador e ex-governador Tasso Jereissati", afirmou o deputado estadual Felipe Mota na matéria.
Faltou ao O POVO solicitar ao deputado algum registro desse momento em Mato Grosso por ele citado. Ou mesmo apurar com o PSD de Kassab se Tasso seria mesmo uma das possibilidades a entrar na disputa ao lado do Caiado e quem seriam os outros.
O próprio tom da reação de Tasso ao descartar essa possibilidade de ser vice de Caiado deixou uma pista de que a história poderia ter sido mais bem apurada antes da publicação. "Faz anos que eu não converso com o Ronaldo Caiado. Foi meu colega no Senado. Não tem o menor fundamento", afirmou o tucano, em matéria publicada na sexta-feira, 24.
O caso Priscila
Por fim, a hipótese que coloca a vereadora Priscila Costa como vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) é a com explicações mais insípidas até o momento.
Priscila já manifestou interesse em ser a candidata do PL cearense ao Senado, mas aparentemente perde a queda de braço no partido, cuja maioria apoia o deputado estadual Alcides Fernandes para a disputa.
Colega de Alcides na Alece, Dra. Silvana (PL) afirmou ao O POVO que a especulação em torno do nome de Priscila está no contexto desse embate interno. "Estão jogando o nome (de Priscila) para criar o fato". É uma possibilidade que não pode ser descartada. Mas é necessário apurar mais junto a dirigentes do PL e membros do clã Bolsonaro o quanto há de especulação e o quanto há de concreto.
Isso vale para essa e para as muitas outras novelas que devem surgir até as convenções de julho e agosto. Ainda há muito chão - e muito disse-me-disse - pela frente. O POVO


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