Junto à prisão de cinco vereadores de Morada Nova, a 170 km de Fortaleza, a 93ª Zona Eleitoral do Ceará também
determinou o afastamento dos parlamentares investigados por 180 dias.Durante esse período, eles continuarão recebendo salários pela Câmara Municipal. A informação consta na decisão que autorizou o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão no âmbito da Operação Traditori, deflagrada nessa quinta-feira (12) pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/CE).
Os parlamentares são suspeitos de receber dinheiro da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) para o financiamento das suas campanhas nas eleições de 2024, com promessas de ajuda na estratégia de infiltração do grupo na política do município. No mesmo processo, um 6° parlamentar é investigado.
Segundo o juiz Adriano Ribeiro Furtado Barbosa, titular da 93ª ZE, o afastamento foi necessário porque os vínculos não se exauriram com a vitória eleitoral e continuaram repercutindo na atividade parlamentar, que passou a funcionar como contrapartida política ao financiamento recebido.
Exemplo disso é a nomeação de uma mulher apontada como membro do núcleo financeiro-operacional da facção ao cargo de assessoria de cerimonial na Câmara Municipal. O responsável pelo provimento foi o presidente da Casa, Hilmar Sérgio (PT), preso na operação da quinta-feira.
A decisão, contudo, não estendeu o afastamento à mulher suspeita. Em busca aos atos oficiais no site da Câmara Municipal de Morada Nova, também não foi possível constatar exoneração ou procedimento similar vinculado ao seu nome.

A 93ª ZE ainda estabeleceu que a vice-presidente da Casa, Jane Martins (PDT), fosse oficiada sobre a decisão, a fim de dar andamento à convocação de suplentes.
O PontoPoder procurou a vereadora e a Câmara nessa sexta-feira (13), mas não houve resposta. Até essa quinta-feira, o 2º secretário do Parlamento, Davi Sousa (PT), havia informado à reportagem que ainda não havia sido feita a notificação.
Um 6º vereador é investigado
Embora não tenha sido alvo de mandado na Operação Traditori, o vereador Weder Basílio, titular de uma vaga do PP na Câmara, é investigado no mesmo processo. Foram identificadas sucessivas operações financeiras entre ele e um intermediário financeiro da facção, algumas das quais já haviam sido objeto de comunicações de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Além disso, empresas ligadas a Weder aparecem como contrapartes em transações que envolvem o núcleo financeiro da organização criminosa. Os indícios, contudo, não se mostram suficientes para amparar uma prisão preventiva.
"As movimentações financeiras atribuídas a José Weder, ainda que expressivas, não se apresentam, neste momento, desvinculadas de sua condição patrimonial, uma vez que se trata de pessoa com elevado poder aquisitivo, titular de diversas empresas, o que, em tese, pode justificar a circulação de valores de maior vulto", ponderou a decisão.
Com a saída provisória de Régis Rumão, ainda não há informações sobre um eventual retorno de Weder à Câmara. Cabe destacar que ele se licenciou do Parlamento em setembro do ano passado para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da cidade.
O PontoPoder não conseguiu localizar o vereador Weder Basílio e tentou contato pela pasta municipal. O espaço segue aberto para manifestações.
Como era a participação dos vereadores no esquema ilícito?
Segundo o relatório citado na decisão, o esquema funcionava por meio do diálogo entre três núcleos da facção criminosa: o de comando, o financeiro-operacional e o político, este composto por vereadores do município. São eles:
- Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
- Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
- Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
- Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
- Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.
A participação dos parlamentares na engrenagem criminosa foi selada ainda na pré-campanha, quando estabeleceram contato com o homem identificado como operador financeiro da GDE, Saul Sales Farias, ou intermediários, em busca de financiamento eleitoral.
“O agente político que aceita receber recursos da facção, ainda que não integre o núcleo operacional, passa a desempenhar papel relevante no projeto criminoso, aderindo conscientemente à finalidade de consolidação territorial e política da organização”, observou o juiz Adriano Barbosa.
Câmara foi alvo de mandado
Nessa quinta-feira, o prédio da Câmara Municipal foi um dos endereços vistoriados por agentes da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil do Ceará (PCCE) no início da manhã. Foram cumpridos 30 mandados de busca e apreensão nos municípios de Fortaleza, Chorozinho, Morada Nova, Limoeiro do Norte e Pedra Branca, no Ceará, além da cidade de São Paulo (SP).
O acesso ao Parlamento local ficou bloqueado aos servidores durante esse período. Por isso, as atividades legislativas e administrativas da Casa foram suspensas na data. A resolução foi anunciada pelo órgão via redes sociais, sem comentar os termos das diligências policiais.
Ainda segundo o vereador Davi Sousa, Jane Martins chegou a abrir sessão plenária após o espaço ser liberado pelos agentes policiais, mas os trabalhos foram encerrados por falta de quórum. Apesar de contar com 15 vereadores, incluindo os que foram alvo de mandado de prisão, registraram presença apenas quatro parlamentares.
O PontoPoder buscou o Legislativo novamente, nesta sexta-feira (13), para entender se os trabalhos foram retomados, mas não houve sucesso em obter a informação.
Repercussão no Município
Após o cumprimento dos mandados, ainda na quinta-feira, a prefeita Naiara Castro se reuniu com alguns vereadores da base, incluindo o líder do governo, Elesbão Filho (PSB), e o parlamentar Roberto Andrade (PSB). Ela fez um registro do momento pela ferramenta Stories do Instagram.
Indagada a respeito disso, a Prefeitura não especificou se o encontro teria a operação como pauta. A reportagem não conseguiu contato com os outros vereadores.
Apesar de não ser alvo da investigação nem possuir "qualquer envolvimento com os fatos apurados", como afirmou em nota, a gestão municipal é diretamente afetada pelas diligências. Isso porque Júnior do Dedé, além de ser titular de mandato legislativo, era secretário de Administração de Morada Nova. Nesta sexta-feira, o Executivo confirmou ao PontoPoder a exoneração do político, após a operação.
Candidato a prefeito é investigado
Não só os então candidatos a vereadores se envolveram no esquema, segundo a investigação. Marco Bica (PT) ou "Marquinha da Ana", como também é conhecido, foi candidato a prefeito em 2024, e também teria contado com ajuda da facção. Derrotado pela prefeita Naiara Castro (PSB), ele foi nomeado como superintendente de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra), cargo do qual se despediu nessa quinta-feira, após a operação.
"Para preservar a Superintendência de Obras Hidráulicas do Ceará (Sohidra) e garantir a tranquilidade das investigações, tomei a decisão de me afastar do cargo de superintendente enquanto os fatos são apurados. Reitero que estou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e confio que a Justiça será feita", comunicou pelas redes sociais.
Apesar da "relevante proximidade política e pessoal" com integrantes da organização criminosa, o juiz indeferiu o pedido de prisão preventiva contra ele por considerar que, no atual estágio da investigação, não há provas concretas da atuação ativa em prol da facção.
Além disso, entendeu que a sua liberdade não representa um risco atual à ordem pública ou à instrução criminal, diferentemente dos vereadores. Entretanto, ele permanece no polo dos investigados para o aprofundamento das diligências. PONTO DO PODER
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