Se em uma semana a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) se estendeu por longos e turbulentos dias, com vaivém
de decisões de ministros e novas revelações do telefone de Daniel Vorcaro, na seguinte as ações ficaram concentradas na última terça-feira, 15, dia da famigerada lavagem de roupa suja em público na Corte.A sessão que decidiria se Alexandre de Moraes deveria ser investigado pelas conexões com o ex-banqueiro prendeu as atenções do noticiário político brasileiro a menos de 20 dias das eleições.
Como esperado, os magistrados ignoraram os códigos de convivência harmônica na mais alta Corte e protagonizaram alguns barracos entre si. Sabe-se lá se estavam inspirados pelo debate entre Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) promovido pelo Sistema Verdes Mares no último dia 9, mas prevaleceu em muitos momentos a estratégia do dedo na cara e da gritaria como ferramentas argumentativas de discussão. Não deixa de ser um pouco desalentador e até revelador como cada vez mais tem se tentado a resolução das questões por meio do berro.
Em linhas gerais sobre a cobertura da sessão, a imprensa acabou por destacar mais a confusão em si, jogando luz à "rinha de ministros", aos episódios de descontrole emocional e ao contraponto de maior lucidez oferecido por Carmén Lúcia. O esmiuçamento do que estava sendo debatido ficou mais como detalhe.
A orientação do STF à TV Justiça foi a de que a transmissão priorizasse a câmera estancada no rosto de Edson Fachin, presidente da Corte, nos momentos de maior exaltação. Para quem estava assistindo à sessão ao vivo, restava imaginar as cenas dos ministros se esgoelando entre uma acusação e outra. João Paulo Biage, correspondente do O POVO em Brasília, e Luísa Martins, repórter da Folha de S.Paulo, relataram alguns dos bastidores mais interessantes que não foram captados nas imagens do plenário.
Um ponto central de toda essa história é a complexidade do caso Master, com a grande teia de contatos de Daniel Vorcaro envolvendo número significativo de agentes do alto escalão da República. Explicar toda essa trama é naturalmente difícil, assim como foi dura a compreensão do que estava em discussão no plenário do STF na última terça-feira.
Primeiro com Kassio Nunes Marques, que se declarou impedido de participar da sessão horas depois de virem à tona mensagens do WhatsApp de Vorcaro indicando o pagamento de R$ 500 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro. O magistrado decidiu não votar na sessão usando como justificativa o fato de presidir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), considerando que a votação sobre Moraes impactaria as eleições.
Dias Toffoli também se declarou impedido, mas, ao contrário de Nunes Marques, permaneceu no plenário e assistiu a tudo de camarote. Em seguida, Gilmar Mendes – que para falar da sessão oportunamente sacou seu já tradicional bordão em alemão “eine grosse konfusion” – abriu questão de ordem sob argumento de que, antes da votação sobre Moraes, o plenário precisava decidir se os casos do próprio Moraes e do ministro André Mendonça deveriam ser analisados conjuntamente. Só isso mudou completamente o rumo da conversa pelo restante da sessão.
Para quem pegou o bonde andando, ou desligou por um tempo a transmissão, não era muito fácil entender por que eles estavam votando uma coisa se o propósito da sessão era decidir outra. Explicar tudo isso no meio das falas mais agressivas também era um desafio. A linguagem do “juridiquês empolado” deixava a coisa toda ainda mais inacessível.
Por fim, e deixando a coisa mais embaralhada, Flávio Dino pediu vista após ter proferido voto em favor de que os dois processos fossem analisados de forma associada. Ou seja, voltou atrás, ampliando o engodo. O Instagram do O POVO chegou a noticiar que a sessão havia sido suspensa com o placar de 4 a 4.
Minutos depois, a legenda da postagem foi editada, atualizando o resultado parcial e citando reversão para 4 a 3. Como o pedido de vista se deu antes do voto final de Cármen Lúcia, o voto dele deixou de ser contabilizado. A rigor, o placar não foi 4 a 4 em nenhum momento. Além da atualização, uma segunda postagem foi feita no Instagram destacando o “novo placar”.
Apesar desse ruído, para quem não conseguiu ou não quis assistir à transmissão da sessão, o Instagram do O POVO foi um bom meio para acompanhar o que se passava, com vídeos quase que em tempo real dos principais momentos.
No fim prevaleceu a sensação de “e agora?”, com todo mundo um pouco perdido diante do aparente impasse imposto pelo pedido de vista feito por Dino. Na cobertura da imprensa como um todo, pouca gente soube ou conseguiu explicar o que poderia acontecer naquela situação. A Folha até fez uma boa matéria complementar com resumo e tira-dúvidas, um tipo de conteúdo que ajuda (ou pelo menos tenta ajudar) na compreensão.
Dois dias depois, o ministro Fachin postergou a sessão que analisaria o caso de André Mendonça, prevista para a próxima quarta-feira, 23. Aparentemente, esta confusão fica para depois da eleição. A imprensa que lute para encontrar meios de explicar melhor toda essa barafunda.O POVO
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