É estranha, chega a ser esquisita, a frieza das ruas em meio
à campanha eleitoral em curso, que levará à escolha do próximo presidente da República, dos governadores estaduais e da renovação dos colegiados nas Assembleias Legislativas, da totalidade da Câmara dos Deputados e de dois terços do Senado.A gente circula pelas cidades e, em várias situações, quase que não percebe que em duas semanas estaremos todos indo às urnas para fazer as escolhas acima, de tanta importância para o que nos espera em termos de estruturas públicas de poder.
Parece natural imaginar que, fruto dos instrumentos modernos que movimentam hoje o processo eleitoral, parte do entusiasmo que antes dizia respeito à disputa física pelo eleitor esteja transferida para o ambiente virtual das redes sociais.
Portanto, o resultado disso teria que ser um esfriamento geral do que é visível, o que acaba sendo até uma boa notícia já que como efeito principal o nível de poluição - visual, sonora etc - se reduz de maneira drástica. É um problema que não sumiu, claro, mas que parece bem menor aos nossos olhos neste 2026.
Cabe discutir, feita a constatação, o aspecto de ganhos e perdas dessa realidade entre os candidatos naquilo que a eles interessa, que é a conquista do voto. Olhando para a disputa presidencial concentrada agora entre Lula e Flávio Bolsonaro ou para a briga pelo governo cearense, que tem Elmano de Freitas e Ciro Gomes no bloco de favoritos, a quem deve interessar essa calmaria das ruas? Na verdade, a pergunta inicial é se ela interessa a alguém.
Não há resposta pronta, mas uma análise mais profunda sobre como as peças se movimentam no jogo das eleições é possível dizer que em ambos os casos, considerando que Ciro aqui no Ceará tem o apoio do bolsonarismo e com isso obtém proveito dos seus métodos preferenciais, a transferência de parte da tensão da disputa para o mundo das redes sociais coloca o petismo e os petistas em desvantagem.
Parece notório que há no segmento de direita maior domínio das linguagens próprias ao ambiente virtual, o que se transforma em capacidade mais objetiva de tirar proveito da potencialidade que oferece. No bom e, em especial, no mau sentido
É perceptível que um dos impulsionadores do movimento bolsonarista no País tem sido a participação com destaque de figuras que entendem a dinâmica própria da comunicação virtual, o que lhes dá uma vantagem natural quando o debate eleitoral se desloca das ruas para as redes.
As esquerdas e o PT, por sua vez, ainda parecem muito presas a uma maneira de fazer política eleitoral que depende muito da mobilização física de gente, algo que segue importante para o êxito de uma candidatura, mas já não basta como estratégia de impulsionamento de um nome. Por mais que seja ele, como no caso do presidente Lula, hoje buscando uma nova reeleição, alguém já testado suficientemente nas urnas.
De volta à aparente indiferença de quem circula por nossas ruas e avenidas com o momento eleitoral, contrastando com a efervescência do mundo fantástico e quase incontrolável das redes sociais, ela pode inclusive representar um sinal de amadurecimento cidadão do brasileiro.
Afinal, deve interessar a todos que os espaços urbanos de uso comum sofram menos o efeito ruim do período representado pela "sujeira" na divulgação de candidaturas, com menos poluição visual e, quem sabe, menos pressão sobre o eleitor para que ele faça sua escolha sem estímulos que acabam atrapalhando sua rotina. As cidades, e quem mora nelas, agradecem.GUÁLTER GEORGE/ O POVO
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