O primeiro debate da disputa pelo Governo entre Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) foi pródigo também em momentos de
constrangimento, como quando o petista anunciou que andava com “Ciro, Luizianne e Lula”.É possível que o chefe do Abolição quisesse se referir a Cid Gomes (PSB), irmão de Ciro e candidato à reeleição para o Senado na chapa governista, mas acabou deixando escapar o nome do oponente.
Na hora, Ciro gracejou: “Comigo, não”.
O episódio fez lembrar o desempenho de outro nome do PT em eleição recente, Evandro Leitão, que se dirigiu a André Fernandes (PL) algumas vezes como “meu candidato” na corrida pela Prefeitura de Fortaleza em 2024.
A despeito do ato falho, Elmano apresentou boa performance em grande parte do encontro na TV Band ontem de noite, confrontando Ciro sobre temas nos quais se imaginava que o tucano se sairia melhor, entre os quais segurança, saúde e economia.
Mas o erro mais recorrente de Ciro no debate foi ter deixado sem uma resposta eficaz o maior e mais previsível trunfo retórico do governador: associar seu adversário ao bolsonarismo, especialmente a Flávio Bolsonaro, do PL.
O tucano tinha à mão as investidas do governismo para atrair a federação União/PP dos deputados federais Moses Rodrigues e AJ Albuquerque, useiros e vezeiros na adesão a uma agenda contrária à do presidente Lula na Câmara.
Ciro também poderia ter citado Oscar Rodrigues, prefeito de Sobral, bolsonarista por convicção e esperteza e hoje figura de muita intimidade com a base aliada.
Ou até o prefeito de Santa Quitéria e filho do gestor cassado Braguinha (PSB), Joel Barroso, que esteve no palanque de Elmano na convenção que o lançou como candidato no dia 31 de julho, no Centro de Eventos.
Essas cartadas, no entanto, foram todas desperdiçadas pelo ex-ministro, que também esqueceu de mencionar, ao menos de passagem, o senador Jaques Wagner (PT) - enroladíssimo com Daniel Vorcaro -, quando foi acuado pelo concorrente sobre o caso Master.
No curso das duas horas de programa, Elmano se sentiu tão à vontade que conseguiu até jogar no colo de Ciro uma cota de responsabilidade pelo problema da criminalidade no Ceará ao dizer que o CV se instalou no território ainda em seu governo, em 1993.
E nem importa se, em 2015, durante o primeiro mandato de Camilo no Executivo, o então secretário da Segurança Delci Teixeira negou que houvesse facção no estado, atribuindo as taxas já crescentes de homicídios aos conflitos entre “pirangueiros” – um discurso à época endossado enfaticamente pelo Abolição, que afastava qualquer hipótese desse tipo de fenômeno na esfera cearense.
Era algo de que Ciro poderia ter se valido no embate contra Elmano, mas o tucano pareceu às voltas com dificuldades práticas, como a gestão do tempo e a compreensão das regras (confusas, admito) desse primeiro debate. HENRIQUE ARAUJO
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