Nada movimentou mais a política brasileira nos últimos dias do que a briga pública entre o pré-candidato do PL à
presidência da República, Flávio Bolsonaro, e a madrasta dele, Michelle, que até terça-feira presidia o estratégico núcleo do partido voltado para a temática da mulher.Cargo que deixou, por decisão pessoal, exatamente como um dos efeitos do clima político irrespirável que se criou entre os dois, a ponto de já não se ter mais certeza sequer de seu apoio ao projeto eleitoral dele para 2026.
Os efeitos de toda a situação sobre a campanha parecem devastadores, se observados os números das pesquisas que têm sido divulgadas, e ainda não se conseguiu identificar um interlocutor com capacidade de promover uma paz, mesmo provisória, entre as partes.
A crise tem, entre suas origens, um episódio relacionado diretamente ao cenário eleitoral do Ceará para 2026. Exatamente onde a coluna procurará concentrar sua atenção no esforço de entender as razões de, no plano nacional, a coisa aparentar ter saído do controle.
Michelle foi clara e transparente ao anunciar que não está disposta a passar uma borracha no passado e, por razões pragmáticas, esquecer tudo que Ciro Gomes, lá atrás, dizia de negativo e até depreciativo contra a família Bolsonaro, a começar pelo líder, Jair, que vem a ser o marido dela.
Era coisa pesada mesmo, ao estilo do político cearense que não costuma, como ele próprio admite, segurar a língua quando se trata de atacar alguém de quem divirja. Enquanto adversário for, pelo menos.
O capítulo cearense da tensão interna (com efeitos externos) que abala o bolsonarismo, e a própria família Bolsonaro, parte de uma postura equivocada de Michelle, que demonstra ainda não ter estômago suficiente para o desgastante jogo da política.
André Fernandes, que um dia também já pareceu incapaz de entender os limites largos que a conquista do poder impõe, quando ele é objetivo real, soube aprender que o aliado de hoje pode ser o inimigo de amanhã e, principalmente, vice-versa.
As lições de 2024, quando precisou abrir os braços para acolher no segundo turno da disputa em Fortaleza gente que até a véspera parecia indisposto a dar um simples 'bom dia', foram bem absorvidas pelo parlamentar.
O certo é que a ex-primeira-dama, naquele momento ainda uma voz muito ouvida e bastante respeitada no bolsonarismo (situação que mudou ultimamente), coisa de quatro meses atrás, decidiu tornar pública sua oposição clara e absoluta à aproximação com Ciro patrocinada pelo PL local, à frente André Fernandes.
Um grito que se fez ouvir, inicialmente, que até chegou a gerar uma sinalização de recuo, mas que, com o tempo, não se demonstrou suficiente para desfazer o que estava encaminhado como certo na estratégia local do PL: unir forças a todo o antipetismo local dentro de um objetivo comum de apear o PT do poder. Aqui surge a utilidade política de Ciro Gomes, com tudo de contraditório que ele carrega na condição de aliado.
Michelle Bolsonaro tem uma boa oratória, uma interlocução que ninguém do grupo consegue ter igual junto ao público evangélico, é uma mulher de postura firme dentro de um movimento político notoriamente dominado pelo poder masculino, enfim, acumula em si uma série de atributos únicos que dão a ela um protagonismo natural.
No entanto, parece que no caso comete um erro ao colocar o fígado à frente da estratégia e, por isso, se insurgir contra a opção dos bolsonaristas cearenses de se integrarem a uma frente para derrotar o PT, alegando razões do passado e demonstrando incapacidade de entender que política se faz, quando necessário, exercendo a capacidade de perdoar. É bíblico, inclusive.GUÁLTER GEORGE


0 comentários:
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.