Pragmatismo eleitoral ou lealdade ao bolsonarismo 'puro'?
A disputa entre as duas posturas dentro do Partido Liberal tem encontrado no Ceará o principal palco. De forma prática, o embate coloca, em lados opostos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o pré-candidato à presidente Flávio Bolsonaro (PL) — e, até o momento, sem vitória contundente para nenhum dos dois.
Pouco mais de seis meses atrás, Michelle Bolsonaro (PL) veio a Fortaleza participar do lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão ao Governo do Ceará. Na ocasião, chamou de "precipitada" a articulação, capitaneada pelo deputado federal André Fernandes (PL), para uma aliança do PL Ceará com Ciro Gomes (PSDB).
A fala de Michelle Bolsonaro contra o também presidente do PL Ceará, André Fernandes, resultou em série de críticas contra a ex-primeira-dama pelos três enteados mais velhos — Flávio Bolsonaro, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PL). A rusga teve que ser pacificada nacionalmente e interrompeu as negociações no Ceará.
Apenas dois dias depois da pacificação, Flávio Bolsonaro anunciou a pré-candidatura à presidência da República, escanteando o nome de Michelle Bolsonaro na disputa nacional. Ela vinha sendo cotada como pré-candidata a vice-presidente, em eventual chapa com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Agora, o Ceará pode sediar o primeiro ato de pré-campanha de Flávio Bolsonaro com a presença de Michelle Bolsonaro — e a possível declaração, ainda inédita, de voto da ex-primeira-dama em favor do enteado.
Logo após o PL Ceará confirmar a agenda do senador no Estado, a assessoria de Michelle também disse que ela estará no evento marcado para o dia 10 de julho.
Diante desse cenário, qual o motivo para o Ceará concentrar momentos cruciais para a estratégia nacional do PL e do bolsonarismo?
"O Ceará concentra esses episódios porque estão se cruzando, ao mesmo tempo, uma disputa de poder dentro do clã Bolsonaro, um teste de viabilidade eleitoral do bolsonarismo no Nordeste e uma briga local por protagonismo que ficou amarrada à sucessão presidencial", resume a professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio.
Ceará é 'laboratório' do pragmatismo do PL
A convergência destas razões elencadas por Dionísio começa com o crescimento da liderança de André Fernandes no Ceará, mas também nacionalmente. "Ele se consolidou como a principal liderança bolsonarista fora do eixo Sul-Sudeste, especialmente após a campanha para o Paço Municipal em 2024, quando superou a votação que o próprio Bolsonaro teve na Capital em 2022", explica.
Ao capitanear as articulações para a aliança com Ciro Gomes, André Fernandes acaba entrando em embate com Michelle Bolsonaro. Uma divergência que "não é cosmética". "Ela toca no núcleo da identidade do bolsonarismo, que se baseia em lealdade pessoal ao ex-presidente, não em pragmatismo eleitoral puro", pontua Dionísio
O professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Emanuel Freitas, pontua que o Ceará tem sido, justamente, "o laboratório de um certo pragmatismo 'às claras' do bolsonarismo". "Eu desconheço outro estado que tenha esse arranjo pragmático, diz ele, citando que, em outros estados, quando não há pré-candidato a governador do PL, o partido costuma apoiar legendas aliadas, como PP, União Brasil ou Novo.
"Aqui, no Ceará, não. É onde o bolsonarismo se aproximaria de antigos ex-adversários e adversários fortes", afirma. A aliança com Ciro Gomes, portanto, acabar por "escancarar uma certa impureza ideológica", diz Emanuel.
"Embora a nível nacional ainda mantém o arco de aliança estritamente de 'direita hard', aqui, no Ceará, está dando exemplo de que pode se aproximar de antigos adversários de esquerda, e esse laboratório pode servir em outros estados também", acrescenta. Isso produziu uma "reação de parte desse bolsonarismo, capitaneada pela Michelle, pelo (senador do Novo) Eduardo Girão e também pela própria Priscila (Costa, pré-candidata ao Senado do PL)".
Eduardo Girão foi enfático na crítica à aliança feita com PL, em entrevista na live do PontoPoder, e disse que ela "tem características de Centrão". "A verdadeira direita, com todo respeito, não pode estar nessa outra aliança. Inclusive, eu acredito que isso mostra uma incoerência muito grande. Me parece ser um projeto familiar que está influenciando muito para que se mude da água para o vinho uma postura que vinha (consolidada)", disse o pré-candidato ao Governo, na quinta-feira (18).
O peso do Nordeste na estratégia do PL
A escolha pelo pragmatismo eleitoral no Ceará "faz o bolsonarismo se igualar também ao lulismo", destaca Emanuel Freitas.
O doutor em Ciência Política pela USP Caio Barbosa lembra que "o PT já tem adotado essa estratégia em alguns estados, de buscar aliados do governo, mas não necessariamente ligados ao PT".
"Historicamente, os bolsonaristas não têm feito isso, eles têm buscado nomes mais fiéis", continua Barbosa. "Porém, nós estamos falando do Nordeste, que é um reduto tradicionalmente forte do PT. No Ceará, em particular, o PT tem governado o Estado já há alguns ciclos. E você tem um nome forte hoje, o oponente do PT, que é o nome do Ciro Gomes", acrescenta.
"Essa é uma abordagem diferente que o bolsonarismo está tendo de, em vez de lançar um nome tradicionalmente ligado ao seu grupo político, desta vez busca fazer uma aliança com um político tradicional do Estado, que é o Ciro Gomes, com um inimigo em comum".
Para Dionísio, a dificuldade de ganhar terreno no Nordeste talvez seja o fator determinante para a escolha por esse pragmatismo eleitoral no Ceará e que traz os holofotes para o Estado na hora da elaboração das estratégias bolsonaristas. "Hoje o Ceará é um reduto petista, o que muda o cálculo estratégico do PL, porque torna o estado um desafio valioso em termos de marketing de campanha", explica.
"O peso do Nordeste e, especificamente, do tamanho e da uniformidade da vitória de Lula no Ceará em 2022 é a razão de fundo que torna qualquer movimento estrategicamente caro e simbolicamente valioso ao mesmo tempo, o que justifica por que tantos recursos políticos do bolsonarismo nacional estão sendo concentrados por aqui".
Ao mesmo tempo, o Ceará talvez seja, dentre os estados nordestinos, aquele em que o PL está melhor estruturado, servindo como base para tentar reduzir a diferença nas intenções de voto entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro, aponta os especialistas.
"O Ceará, e particularmente Fortaleza, é um dos lugares em que o bolsonarismo tem mais organização. (...) Aqui, é mais organizado, tem mais campeões de votos, tem pessoas do Legislativo que estão com uma projeção maior", argumenta Freitas. "E isso faz com que aqui o bolsonarismo seja diferente, tenha uma força que foi mostrada especialmente na eleição de Fortaleza, que chama a atenção da aposta desse campo".
O holofote nacional para Ciro Gomes
A presença de Ciro Gomes como pré-candidato ao Governo do Ceará, encabeçando uma frente ampla "para salvar o Ceará" também explica o motivo de tanta atenção nacional — não exclusiva do PL. "Eu penso que o PSDB viu a possibilidade de, a partir do Ciro, ressuscitar uma alma do partido", aponta Emanuel Freitas.
"Foi ensaiado ali inclusive a inclusão do nome do Ciro em novas pesquisas. Acabou não acontecendo, mas eu acho que produziu primeiro esse efeito no próprio PSDB", acrescenta. "A presença do Ciro, que é uma figura nacional, como candidato local já atrai a atenção da opinião pública, do campo político por si mesmo".
A postura anterior de Ciro, com diversas críticas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e à própria polarização causada por ele e Lula, também acentua a curiosidade sobre a mobilização em torno do pré-candidato tucano.
"Um candidato a presidente de diferentes eleições, que obteve votações significativas, que foi aliado do PT em diferentes momentos e hoje dá uma guinada na sua história política de fazer uma aliança com a extrema-direita, representada pelo PL", descreve o doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Caio Barbosa.
"O Ceará tem atraído a atenção por, primeiro, expor essas contradições do bolsonarismo, essas fraturas de qual é o rumo em que esse grupo político vai — se adota uma postura mais radical ou se adota uma postura mais pragmática — e também pela figura importante que é o Ciro Gomes. (...) Todo esse caldo acaba atraindo muita atenção para o Ceará justamente para saber quais serão os rumos tanto do bolsonarismo quanto do Ciro Gomes com essa aliança e se ela tem chance de prosperar e de vencer a eleição".
Para Mariana Dionísio, apesar da atenção nacional trazida pela presença de Ciro, os embates internos no PL, tanto estadual como nacional, não são causados pelo ex-governador. "Ele foi o estopim, não a causa", defende.
"Se ele não existisse, outro nome qualquer teria provocado o mesmo atrito, porque o conflito não nasce da figura dele, mas sim, das tensões estruturais que já estavam montadas e só precisavam de um gatilho. A prova mais clara disso é que a crise já se desconectou parcialmente do próprio Ciro", pontua.
Ela argumenta que a declaração de apoio a Aécio Neves (PSDB), cotado como pré-candidato ao Palácio do Planalto, serve para descolar a própria imagem da de Flávio Bolsonaro, assim como as frequentes falas de Ciro que irá priorizar o cenário estadual, sem se "distrair com isso", em referência à disputa presidencial.
Alcides versus Priscila
Dionísio considera que, hoje, o "verdadeiro termômetro da queda de braço" no PL é a disputa pela pré-candidatura ao Senado do partido. "A disputa local cearense deixou de ser apenas sobre quem representa o Ceará no Senado e passou a ser, na prática, um teste para a composição do ticket nacional", afirma Dionísio.
De um lado, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes; do outro, a recém-eleita deputada federal Priscila Costa, lançada por Michelle Bolsonaro. Ambas as pré-candidaturas contam, oficialmente, com o apoio do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
"Se a Priscila Costa for escolhida, isso sinaliza que a ala de Michelle tem poder de veto e indicação real dentro do projeto presidencial; mas se o nome de Alcides Fernandes prevalecer no Ceará, e Priscila for descartada também na vice, fica claro que a estrutura de André Fernandes e Flávio é quem efetivamente comanda as escolhas, com Michelle relegada a um papel decorativo de unidade familiar".
O posicionamento de Michelle Bolsonaro trata inclusive de um apontamento sobre "o futuro dela dentro do bolsonarismo". "Embora ela não seja candidata a presidente, ela quer, de certa forma, dizer que ela está ali, que ela tem um peso, que a voz dela é escutada", afirma Emanuel Freitas.
Por isso, acrescenta ele, a importância dela vir no ato no Ceará, estado que foi palco da divergência pública no final de 2025. Mas a presença dela no Ceará, que não tem sido comentada sequer pelos parlamentares cearenses do próprio PL, pode trazer mais problemas do que benefícios para o Partido Liberal.
"O risco principal é de transformar um ato de pré-campanha em um momento de exposição de fraturas: Flávio exaltando, talvez, a aliança com o Ciro Gomes; a Michelle exaltando o Eduardo Girão, que era o candidato que ela preferia, e talvez mandando algumas indiretas ao Ciro Gomes. O risco é de expor essas divergências, mostrando que não há essa união na família", projeta Caio Barbosa.
Emanuel Freitas acrescenta: “Provavelmente a gente pode esperar ou uma continuidade das declarações dela e uma ruptura definitiva e dizer: ‘Olha, o bolsonarismo pragmático vai com o André e Ciro, e o bolsonarismo radical vai comigo e Priscila’; ou ela vai ali dar as suas condições e dar uma certa trégua para essa aliança. Fica a expectativa”. PONTO DO PODER
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