O São João de Maracanaú produziu um milagre que talvez mereça investigação do Vaticano: a reconciliação de Ciro
Gomes e Roberto Pessoa. Abalou até os agnósticos do Abolição.Durante anos, os dois trocaram críticas, farpas e algumas pancadas políticas daquelas que deixam cicatrizes. Eis que surge uma festa junina, e, de repente, lá estavam os antigos adversários sorrindo, conversando e trocando gentilezas. Teve até karaokê.
Roberto Pessoa tentou tranquilizar os aliados do governo. Disse que apenas cumpriu o dever de prefeito. Depois, brincou: “Quem recebeu foi São João, foi Santo Antônio e foi São Pedro”.
Explicação espiritualmente elegante. Politicamente, porém, o estrago já estava feito.
A foto correu mais rápido que notícia de licitação. A base governista entrou em modo explicação. Era preciso esclarecer que Roberto continuava aliado, que nada havia mudado.
O curioso é que, logo depois do milagre junino, apareceu outro personagem da procissão.
Elmano de Freitas também esteve em Maracanaú. Só que apareceu de muletas, lembrando os ex-votos.
Ele desembarcou acompanhado de reforços. Foi acolitado por Camilo Santana e o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano. Nada contra reforços. O problema é que, no caso do governador, eles parecem ter virado item obrigatório.
Desde que chegou ao Palácio da Abolição, raramente aparece sozinho na fotografia política.
Antes de ser governador, Elmano era deputado, mas distante da primeira prateleira eleitoral petista. Havia disputado a Prefeitura de Caucaia e terminado em quarto lugar. Sua reeleição para a Assembleia nem sequer era dada como certa.
Então veio o rompimento entre os Ferreira Gomes e o PT. E veio também a candidatura embalada pelo slogan "Ceará Três Vezes Mais Forte".
Era o Elmano e suas muletas: Lula de um lado, Camilo do outro. Funcionou.
O problema é que a campanha acabou, mas as muletas permaneceram, até fazer calo no sovaco.
Até mesmo a defesa da gestão foi terceirizada, transformando o chefe da Casa Civil numa espécie de procurador-geral das explicações oficiais.
No fim, o São João de Maracanaú talvez tenha revelado mais do que uma reconciliação. Revelou o contraste entre dois estilos.
Ciro chegou carregando apenas a própria biografia.
Uma coisa é usar muletas para aprender a caminhar. Outra bem diferente é descobrir que já não sabe andar sem elas.
Outro fenômeno curioso: com ou sem muletas, aonde Ciro vai, Elmano vai atrás. Sempre que Ciro visita um município importante, pouco tempo depois surge uma agenda do governador na mesma direção.
Coincidência, estratégia ou apenas um eficiente serviço de rescaldo, destinado a apagar possíveis focos de incêndio antes que virem labaredas eleitorais, numa grande fogueira de São João? LUCIANO CLEVER


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