A saída da deputada federal Luizianne Lins do Partido dos
Trabalhadores já é tratada, nos bastidores da política cearense, como uma ruptura anunciada.A parlamentar acumula desgastes com a sigla há anos e vem perdendo espaço para o grupo hegemônico liderado pelo ministro Camilo Santana e pelo governador Elmano de Freitas.
“A minha relação com o PT sempre foi de construção. Sabe o que são horas e horas da sua vida dedicadas a visitar o interior do Estado, a organizar, a fortalecer o partido? Eu sempre fui militante de base, sempre gostei desse processo de organização partidária. E, de uma hora para outra, você vê tudo isso virar pó?”, reclamou a petista, em entrevista no fim do ano passado.
Para Luizianne, a legenda tem perdido seu caráter de esquerda e caminhado para o centro. Segundo ela, isso se deve à “filiação em massa” de lideranças sem ligação com as pautas históricas do partido. “Há um grupo que decidiu que o PT seria o caminho mais fácil para se eleger e, por isso, resolveu aportar na sigla. E isso vem acontecendo como se fosse algo natural, como se estivessem entrando em um partido qualquer, sem compromisso com suas causas”, lamentou.
O estopim para uma eventual saída de Luizianne teria sido sua pré-candidatura ao Senado, lançada em abril do ano passado. O nome da petista sequer é citado entre as possibilidades para a Câmara Alta na chapa governista, hoje liderada pelo governador Elmano.
Curiosamente, o próprio Elmano foi projetado politicamente por Luizianne, a “Lôra”, ainda em 2012. Ele integrou sua gestão como secretário municipal e chegou a ser o candidato escolhido por ela para sucedê-la na Prefeitura da Capital.
Hoje, o diálogo entre Elmano e Luizianne é inexistente. O rompimento ficou evidente nas eleições de 2024, quando o Partido dos Trabalhadores preteriu a deputada, que desejava disputar a Prefeitura e soma quase 40 anos de filiação à sigla, e lançou o recém-filiado Evandro Leitão como candidato.
Luizianne não fez campanha para Evandro e, em contrapartida, seu candidato a prefeito de Caucaia, Catanho (PT), teve a sua campanha “minada” por esse grupo hegemônico. “Tiraram partido de dentro da campanha, tiraram dinheiro, foi uma confusão grande”.
Saída do PT
Segundo a própria Luizianne, a saída do PT passou a ser considerada após um episódio de “violência política” sofrido dentro do próprio grupo durante a campanha de 2024. “Pela primeira vez eu imaginei de forma concreta: ‘gente, não tem mais espaço para mim aqui’”.
Hoje, a proposta que tem avançado é de se filiar à Rede, que deve manter federação com o Psol. “Se eu tiver no PT, eu tenho algumas possibilidades, se eu tiver em outro partido, eu tenho outras possibilidades”, admite Luizianne.
A proposta existe. Luizianne tem evitado falar sobre a política cearense, mas sua assessoria confirmou que o diálogo está acontecendo, mas “não há nada oficial”.
Do lado do Psol, o deputado estadual Renato Roseno defende que “é evidente demais que o Ceará gostaria de ter uma senadora como a Luizianne”. Luizianne tirou mais de 180 mil votos em 2022 e sua candidatura pela federação, ao Senado ou à Câmara Federal, possibilitou a candidatura do próprio Roseno.
“Luizianne deputada federal tem dialogado conosco. Nós respeitamos o tempo dela. A trajetória dela a qualifica para ser candidata ao Senado. Caso o PT, como de fato dá sinais, não vai ofertar essa vaga para ela, a nossa federação, através da Rede, ofertaria. E digo mais: seria a única candidata mulher ao senado num momento em que a gente precisa de mais mulheres”.
Hoje, o Psol não tem nomes de peso para lançar Roseno à Câmara. A tendência é que o partido foque em tentar ampliar sua presença na Assembleia Legislativa. Mas, se melhora para o Psol, o cenário é desanimador para o PT.
O Psol, como partido de esquerda, é o principal tirador de votos do partido do presidente Lula, que busca o eleitorado de centro para compensar.
Em 2022, o PT fez apenas três deputados federais: José Guimarães (186.136 votos), Luizianne (182.232 votos) e José Airton (82.274 ). O partido não chegou a 500 mil votos nas urnas. Para comparação, o PDT fez 1.431.520 votos, o PL, 973.318 votos.
A candidatura de Luizianne fora das fileiras petistas fortalece uma terceira via à esquerda com poder de reduzir ainda mais a presença do PT na Câmara Federal. Fora do PT, com independência, a Lôra pode tecer críticas duras ao partido, expor contradições e cobrar um preço alto pela desvalorização.
O Psol, a título de exemplo, não poupa as gestões petistas na defesa de suas pautas. Tanto na Alece quanto na Câmara de Fortaleza, o partido critica a postura de Evandro e Elmano em relação à políticas ambientais e habitacionais.
De aliada a isolada: os episódios que afastaram Luizianne do PT
Luizianne tem perdido espaço, mas não está só. A vereadora Mari Lacerda (PT) faz parte dos aliados mais próximos da ex-prefeita e não descarta a saída do partido em caso de desfiliação da deputada federal.
“Estamos dialogando coletivamente com o nosso grupo para definir os próximos passos. Confesso que já recebi convite para ir para o Psol. Nesse momento, seguimos aguardando o avanço das conversas e priorizando uma decisão construída de forma coletiva”.
Para ela, a saída de Luizianne seria uma “perda gigantesca para o PT. “Estamos falando de uma liderança com uma trajetória consolidada: foi vereadora, deputada estadual, ex-prefeita e é a deputada federal mais votada de Fortaleza”.
A deputada estadual Larissa Gaspar também cogita deixar o PT. “Eu recebi um convite, não só da Rede Sustentabilidade, mas também do Psol para disputar a eleição por essas siglas”, admitiu a parlamentar, que deve decidir apenas “nos 45 do segundo tempo” da janela partidária.
As parlamentares são ligadas às causas sociais e a bandeiras históricas do PT. A possibilidade de saída delas confirma a descaracterização do PT com a sua trajetória de “partido das massas”.
Hegemonia de Camilo
O ministro da Educação, Camilo Santana, durante quase todo o seu mandato no Palácio da Abolição, sequer compareceu às reuniões do Partido dos Trabalhadores e não interferia nas questões internas do grupo. Em sua primeira campanha ao Governo, ele não usou o tradicional vermelho do PT em sua comunicação e optou, na época, pelo laranja.
O cenário mudou em 2022, quando movimentou a máquina para a eleição de Elmano e deu início à filiação de diversas lideranças alheias ao partido para dominar as votações internas e as escolhas partidárias.
A hegemonia de Camilo ficou evidente durante a escolha de Evandro como candidato à Prefeitura de Fortaleza. Luizianne compareceu brevemente à sede do grupo e retirou a sua candidatura minutos antes. Aliados da Lôra fizeram discurso na sede e criticaram a “filiação de bolsonaristas” no PT e a perda da identidade.
Para Luizianne, o caminho que o PT tem tomado no Ceará, sob a desculpa de garantir a vitória nas urnas e a boa relação com o Legislativo, não justificam a descaracterização do partido. “Eu fiz isso [governo de coalizão), nunca tive problema com Parlamento, e nem por isso o PT saiu em frangalhos”.
Desgaste
2022
Avanço do grupo de Camilo Santana no PT e início da perda de espaço de Luizianne Lins.
2023–2024
Filiação em massa no PT e críticas de Luizianne à perda da identidade de esquerda do partido.
2024
PT ignora candidatura de Luizianne e lança Evandro Leitão à Prefeitura de Fortaleza.
Rompimento político com Elmano de Freitas se torna público.
Luizianne não faz campanha para Evandro e denuncia isolamento dentro do partido.
Campanha de seu aliado em Caucaia é, segundo ela, “minada” pelo próprio PT.
Episódio de “violência política” interna faz Luizianne cogitar deixar o partido.
2025
Pré-candidatura ao Senado é ignorada pela chapa governista.
Luizianne relata desgaste profundo e afirma não ver mais espaço no PT.
2025–2026
Avanço das conversas para possível saída do PT e filiação à Rede/Psol


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