Sem fazer juízo de valor, é diferente de quase tudo que se viu em décadas. Não é uma mobilização tradicional, com grupos organizados. Estavam na rua, em grande parte, segmentos que não costumam se engajar nesse tipo de movimento. Gente realmente estranha às passeatas.
Os partidos de oposição não lideram. Vão a reboque. Não estão tampouco na vanguarda das ideias – um tanto confusas. Pelo contrário, tentam refrear teses mais radicais, como de impeachment ou “intervenção militar” (golpe, em bom português). Outra novidade é a cobertura midiática, intensa e, por vezes, entusiasmada como nunca antes na história dos movimentos de massa.
A quebra de paradigmas do que normalmente se espera de movimentos de massa explica parte da surpresa com o que houve domingo. Bem como os rótulos, justos ou não, que se tenta impor ao movimento.
O governo Dilma Rousseff (PT) sai seriamente abalado dos movimentos de domingo – o que é muito perigoso para uma administração que já vem mal. Tentar colocar pechas nos manifestantes, achar que foi só coisa de uma elite ou da minoria, não é apenas inócuo. Se os articuladores e apoiadores do Palácio do Planalto caírem nessa, vão levar Dilma inapelavelmente para o buraco.
O governo sofre golpe e tanto numa das últimas trincheiras a conseguir demonstrar insatisfação – as ruas. E a potencialmente mais poderosa. Nas outras – a política, o empresariado – a rejeição já era visível há muito tempo.
Por mais que se discorde do método ou do conteúdo dos protestos, há razões práticas e objetivas para a insatisfação. O governo vai mal e tem sofrido críticas pesadas até do PT.
Aliás, principalmente do próprio partido têm partido os mais contundentes questionamentos às medidas de arrocho econômico, principal e quase única marca do segundo mandato da presidente até aqui. Há ainda paralisia administrativa. E um escândalo de gigantescas proporções. Definitivamente, as coisas não vão nada bem.
Os atos realizados em praticamente todos os estados foram uma das maiores ondas de protestos simultâneos contra um governo pelo menos desde o “fora, Collor”. A sustentação política, que já vinha capenga e com derrotas importantes no Congresso Nacional, fica ainda mais severamente comprometida diante da demonstração de reprovação popular.
Fosse no parlamentarismo, onde mudanças de poder são mais naturais e ocorrem quando há demonstração de falta de apoio político, é possível que Dilma já tivesse caído.
No presidencialismo e com três anos e nove meses pela frente, é importante para o Brasil que Dilma recobre logo as condições para governar. Por ora, tem-se um governo muito capenga, fraco, duramente questionado, sem rumo e sem forças para agir.O POVO
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