Há algo de profundamente enganoso nos números recentes da educação no Ceará.
O Estado comemora uma das menores taxas de reprovação do país (1,2%), mas omite o essencial: esse índice dobrou em relação a 2022. Não é avanço. É alerta.
O Ceará figura entre os cinco estados que registraram piora no índice de reprovação. O dado de 2024, divulgado pelo Inep, abrange o período de dois anos de implementação do Pé-de-Meia.
Esses números expõem a falta de efetividade. Não se nega que o programa contribui para reduzir a evasão escolar, um problema crônico. Para jovens vulneráveis, o incentivo pecuniário é um alívio. A bolsa, porém, revela-se muito mais uma política de assistência com apelo eleitoral do que uma solução educacional estruturante.
O aluno permanece na escola, mas por obrigação, para garantir a frequência de 80% exigida para receber a bolsa. A permanência física não se traduz em engajamento ou aprendizado. A evidência é o aumento da reprovação. O governo resolveu um problema estatístico, a evasão, mas não tocou no problema real: a falta de sentido da escola para o jovem. O estudante está de corpo presente, mas a mente e a motivação estão para lá de Marrakesh.
O Pé-de-Meia cria uma presença artificial, sustentada por incentivo financeiro. É a pedagogia do depósito: paga-se para o estudante ocupar a cadeira, não para aprender. Resultado: mais presença, menos aprendizagem efetiva.
Mais alarmante é constatar que, mesmo com a injeção bilionária do programa, as matrículas continuam caindo. Dados do Censo Escolar apontam que, entre 2024 e 2025, o Ceará perdeu quase 25 mil matrículas na educação básica, sendo 8 mil no ensino médio. No Brasil, a queda no ensino médio foi de 5,3%. Ou seja, o programa nem sequer consegue atrair de volta quem já abandonou o sistema.
O verdadeiro desafio da educação é muito mais complexo. Compreender os motivos da evasão exige encarar que a escola atual não faz sentido para o jovem. Segundo o Unicef, o principal fator para a evasão no Ceará é o desinteresse pelos estudos.
Precisamos debater alternativas reais. Talvez o caminho passe por uma revisão da grade curricular, tornando-a mais conectada com a realidade dos estudantes. Talvez exija uma reorientação nas práticas pedagógicas, substituindo o modelo conteudista por metodologias ativas. E é indispensável enfrentar a precarização do trabalho docente, garantindo professores valorizados, especialmente nas escolas de tempo integral.
O Pé-de-Meia pode até garantir a presença na chamada, mas não garante aprendizagem, não engaja e não transforma a escola. Enquanto tratarmos o sintoma com dinheiro e ignorarmos a doença estrutural, continuaremos colecionando diplomas vazios. O OTIMISTA

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