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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

AS MENTIRAS DE BOLSONARO E O DEDO DE QUEIROGA

Por ipuemfoco   Postado  sexta-feira, setembro 24, 2021   Sem Comentários


Ao ver barrado pelo Poder Legislativo e STF o seu plano de perpetuar os meios digitais como um fértil campo para disseminar livremente mentiras e invencionices, o presidente

Jair Bolsonaro declarou que ”fake news faz parte da nossa vida” — melhor seria se ele não houvesse generalizado, ou seja, mentira faz parte da vida dele, não da “nossa”. 


A sua mitomania e teimosia são tamanhas, que aquilo que era Medida Provisória, impedindo as redes sociais de tirarem do ar comentários inverídicos, voltará agora aos parlamentares sob a roupagem de projeto de lei. 


No final da semana passada, pouco antes de embarcar para Nova York, o presidente bravateou que estava levando “verdades” que iria dizer na abertura da 76ª Assembléia Geral das Nações Unidas — por tradição, desde 1955, quando se realizou a 10ª Assembleia, é o Brasil que dá início aos trabalhos. 


A quais “verdades” o capitão estava se referindo? Como dá para crer que seja “verdade” aquilo que é dito por quem traz “fake news fazendo parte da vida”? Analistas políticos internacionais, que cobriram o encontro na ONU, foram unânimes diante da fala de Bolsonaro: ainda que seu discurso tivesse sido obra de deuses, o que não foi, mesmo assim o Brasil não se livraria da péssima imagem junto a países de alto patamar civilizatório: imagem de pária da comunidade internacional, imagem de anacronismo e ignorância, imagem que é a semelhança de Bolsonaro. 


O discurso de doze minutos, mentiroso e agressivo, saiu de sua cabeça e da cabeça de seu filho Eduardo — somando-se as duas, não se tem sequer meio neurônio queimado. “É impossível o Brasil recuperar a credibilidade”, noticiou a mídia europeia. O desprezo das nações que estão na contemporaneidade do mundo tem lastro: assim que começou a conspirar contra as instituições democráticas e a ferir os direitos fundamentais dos brasileiros, Jair Messias Bolsonaro acumulou trinta e duas advertências, feitas por relatores da ONU, todas elas envolvendo graves denúncias de violações das garantias fundamentais. 


Visto isso, dá para entender por qual motivo o Brasil não sairá, na visão internacional, da situação de lama moral, falência ética, corrupção grossa, ruína econômica, vazio acadêmico, assassinato da ciência e diáspora cultural em que se encontra. Bolsonaro é sarna para o País. Edificante foram a sua imagem e a de parte de seus asseclas comendo, com as mãos lambuzadas de óleo, pedaços de pizza em plena calçada em Nova York — e o ministro do Turismo, Gilson Machado, deixando aparecer uma porção da cueca. 


Vexame total! Por não estar vacinado contra a Covid, a crer em suas palavras, Bolsonaro esteve proibido de ingressar em quaisquer recintos da cidade que não fossem os da Assembleia Geral e do tradicionalíssimo hotel InterContinental Barclay, um dos mais prestigiados da Big Apple, onde se hospedou. 


Assim que lá chegou, houve um protesto popular contra a sua presença, e ele precisou entrar no edifício pelo local que tem a sua cara: a porta dos fundos. A entrada principal no número 111, ao lado leste da rua 48, em Midtown, não é para qualquer um. 


A suíte em que ficou possui mil metros quadrados de área, e o valor da diária gira em torno de R$ 15 mil, custo garfado do dinheiro público. É lei em Nova York: para ingressar em um restaurante, por exemplo, a pessoa tem de exibir certificado de vacinação. 


O capitão, o mais competente de todos os infectologistas do mundo (só rindo), é contrário à tomada de vacinas — ou talvez as tenha tomado, e por isso decretou sigilo de um século sobre a sua carteira de imunizantes. Como acertadamente disse Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, Bolsonaro “dialoga com a morte”. 


Isso vale para a pandemia, mas a coisa vai além: o presidente e aqueles que o cercam são apaixonados por armas de fogo e agressivamente imitaram com a mão a imagem de revólver em direção a manifestantes contrários ao governo brasileiro. A completa ausência de urbanidade, no entanto, enxovalhando a imagem do Brasil, essa ficou por conta do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, quando ele fez um gesto obsceno com o dedo médio. Os chefes de Estado que estiveram na abertura da Assembleia Geral sabem que o presidente-abutre com olhos de “placas de estanho” (com a licença de Machado de Assis pela utilização dessa imagem) carrega nas asas seiscentos mil mortos. 


Ao ouvi-lo discursar, comprovaram que a sua “verdade” é a mentira. O mito transformou a tribuna da ONU em palanque de campanha para a reeleição. Foi provinciano ao fazer apologia do próprio umbigo, faltou com a verdade e emporcalhou, mais uma vez, o nome do Brasil. Atacou a imprensa nacional, acusando-a de deturpar fatos. Mentira: quem gosta de fake news e quem os deturpa é ele. 


Teve o atrevimento de falar que em seu governo não há corrupção. Mentira: a corrupção está instalada no seio da família, filhos e ex-mulher são investigados e transbordam gordos indícios e gordas suspeitas de que eles adoram a prática criminosa da rachadinha. Bolsonaro disse que respeita indígenas e que eles pleiteiam outras formas de atividades em suas terras. 


Mentira: há poucos dias estiveram em Brasília a exigir que possam manter somente a sua agricultura tradicional, e as boas-vindas foram gás e balas de borracha. Em seu pronunciamento, o presidente omitiu o fato, presente na grande imprensa mundial, de que ele é a favor do “marco temporal”. Quanto à Amazônia, Bolsonaro deu um espetáculo à parte: subiu o tom de voz para assegurar a preservação da floresta e comemorar a redução em 32% do desmatamento em agosto. 


Mentira: esqueceu-se do recorde de dois mil e quinhentos hectares incendiados recentemente entre Rondônia e Amazonas e da devastação inédita e avassaladora cometida entre março e junho. Mais: esqueceu-se de que já prestigiou em sua gestão um certo homem da porteira, Ricardo Salles, o ministro que gostava de abri-la a ilegalidades no campo — e que curte árvores… no chão. 


Finalmente, vale destacar, a dura crítica de Bolsonaro (o tom de voz subiu mais alguns desafinados sustenidos) aos que combatem o tratamento precoce da Covid-19, explicando que não há base para a rejeição. 


Mentira: a OMS (que sabe mais de doenças do que ele) é taxativa na determinação de que não existe essa forma de tratamento — e condena a prescrição da cloroquina, para a qual Bolsonaro advoga. É óbvio que o presidente-abutre chamou a si as glórias de o Brasil ter vacinas. 


Mentira: se o País as possui, é porque houve um incansável batalhador, um corajoso pioneiro, um destemido político democrata e republicano que priorizou os cuidados com a saúde dos brasileiros chamado João Doria, governador de São Paulo — e que vive sendo sabotado pelo Ministério da Saúde, comandado por Queiroga, o médico do gesto vulgar com o dedo, o médico do gesto que não traduz a boa educação da maioria do povo brasileiro. 


É até desnecessário dizer que o capitão-abutre nada mencionou sobre a suspensão que houve da vacinação em adolescentes que não portam comorbidades, porque tal decisão envolveu um truque administrativo e político para fazer sobrar vacinas aos adultos, uma vez que a péssima gestão do doutor do dedo fez a mágica de gerar déficit de doses. Bolsonaro (que tocante! Só rindo) lamentou o falecimento das vítimas da pandemia. Mentira: manifestações de sentimento jamais foram dadas por ele. 


Quando Bolsonaro colocou ponto final no discurso (doze falsidades e distorções em doze minutos), começaram as críticas da mídia nacional e internacional, sobretudo pela sua defesa do tratamento precoce. Bolsonaro isolou definitivamente o Brasil, e o conceito do País desceu mais ainda com a confirmação da notícia de que o ministro da Saúde – justamente o ministro da Saúde – testara positivo. 


Ele defendera convictamente a necessidade do uso de máscara na CPI da Covid, mas a descartou em diversas outras ocasiões para agradar o chefe. Entre o cargo e o vírus, o médico Queiroga optou pelo risco. Ele ficará em quarentena nos EUA, e novamente vai de embrulho o dinheiro público. Antes de sair de cena, Bolsonaro dramatizou: “a História e o tempo dirão quem tem razão”. 


As suas palavras lembram um discurso em tribunal do autocrata comunista Fidel Castro, intitulado “A História me absolverá”. Autoritarismo é autoritarismo, seja à direita ou à esquerda. E a História, sábia senhora, experiente na separação entre o joio da mentira e o trigo da verdade, não absolveu o ditador cubano e já condenou aquele que pretende ser o ditador brasileiro.ISTOÉ/ANTÔNIO CARLOS PRADO

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