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domingo, 10 de março de 2019

CAIU A MÁSCARA

Por Rogerio Palhano   Postado  domingo, março 10, 2019   Sem Comentários


Durante o carnaval, o presidente rasga a fantasia do ultraconservadorismo, divulga cenas escatológicas e expõe não só o Brasil ao mundo como revela uma perigosa falta de decoro e uma ausência completa de liturgia presidencial necessárias ao cargo

Um dos mais importantes presidentes dos Estados Unidos, Abraham Lincoln era um homem de retórica irretocável. Anti-escravagista, foi figura fundamental no processo de pacificação dos Estados Unidos após a Guerra Civil americana. 

Uma de suas mais célebres frases exalta justamente a capacidade de grandes líderes em cultivar a paz e a união, mesmo em tempos de crise. Infelizmente, a realidade brasileira é diametralmente oposta. Apesar de buscar inspiração em modelos norte-americanos, como o presidente Donald Trump, também useiro e vezeiro das redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro coloca os pés pelas mãos. 

Seu estilo de quem age quase sempre com o fígado tem provocado crises desnecessárias e jogado por terra todo o capital político conquistado por ele durante as eleições. No Carnaval, a máscara momesca desmoronou ao chão – foi como se opresidente ficasse desnudo diante de todos. Senão literalmente, suas ideias e atos desprovidos de qualquer filtro litúrgico. 

O ápice do grotesco deu-se na terça-feira 5, quando Bolsonaro compartilhou um vídeo pornográfico LGBTI sob a justificativa de alertar a sociedade brasileira quanto ao que comumente ocorreria no carnaval brasileiro. A imagem mostra um homem urinando em outro numa parada de táxi em São Paulo, segundos depois de o companheiro exibir as intimidades de seu aparelho excretor. 

Foi um dos atentados mais violentos que um chefe de Estado já perpetrou à moralidade pública, lembrou o professor de Ética e Filosofia, Roberto Romano. “Não me sinto confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. 

É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro. Comentem e tirem suas conclusões (sic)”, escreveu Bolsonaro para emoldurar o vídeo escatológico. Na sequência, o presidente da República, não satisfeito, ainda perguntou o que significava “golden shower”, auto-explicativo para quem teve o desprivilegio de se deparar com a cena. No Congresso já há quem defenda o afastamento do presidente por quebra de decoro.

Por mais precoce que possa parecer há amparo legal, embora todos saibam que trata-se de um processo eminentemente político. O pior dos mundos para o presidente não é isso. É que a erosão de sua imagem e os questionamentos sobre sua postura incondizente com a natureza do cargo ocorre até mesmo entre partidos alinhados ao próprio governo. 

Assessores se preocupam com a deterioração da popularidade presidencial antes mesmo de completado 100 dias de administração. Pelo menos quatro generais se revelaram “perplexos” com a situação. Não por acaso.

Eivado da falta total de bom senso, Bolsonaro cometeu um atentado ao decoro público, ao decoro do cargo e da República brasileira. Não só: caluniou a festa mais popular do país dirigido por ele. Por tabela, injuriou o Brasil que preside. Em sua mensagem, texto e imagem, embutiu-se ainda o mais reprovável preconceito – ao menos para alguém investido do cargo de presidente de todos os brasileiros. 

Ao apontar para a cena protagonizada por homossexuais foi contra eles que Bolsonaro se insurgiu. Não seria este o papel de um chefe de estado de um País plural, complexo e diverso como o Brasil. Não faltaram transgressões praticadas também por heterossexuais. Mas o sentido, o objetivo da postagem do mandatário parecia evidente: o de criticar a comunidade gay, justificando uma homofobia criminosa. 

Não há dúvidas: o presidente se rebaixou ainda mais. Ao escolher e lançar luz sobre uma cena pornográfica testemunhada por poucos, mas agora conhecida no mundo inteiro, Bolsonaro parece ter montado o bloco do escracho geral. E se transformou assim num difamador global da nossa cultura. A aliados, o presidente capitulou. Demonstrou arrependimento. 

Reconheceu que agiu por impulso. Sim, fica evidente que Bolsonaro é tão impulsivo nas redes sociais como presidente quanto o foi como candidato. Um erro. O que muitos na capital federal começam a dizer é: “vai trabalhar, presidente. Deixa de tuitar”.

Tolo é quem pensa, no entanto, que tratou-se de um mero arroubo passional. Não só há literatura para fundamentar o que o presidente fez, como por trás existe uma estratégia, um método. Lembra bem o professor de relações internacionais de FGV, Matias Spektor que políticos ultraconservadores na década 1920, líderes integralistas nos 1930 e ideólogos da ditadura militar também acusaram seus antagonistas de degeneração sexual e declínio moral. 

Em comum com Bolsonaro, eles também usavam os meios de comunicação com destreza. A referência é da lavra do historiador Benjamin Cowan: “Securing Sex: Morality and Repression in the Making of Cold War Brazil” (Sexo certificado: Moralidade e Repressão no Brasil por trás da Guerra Fria). Há exemplares tupiniquins antes mesmo de Bolsonaro ascender ao poder. 


Entre eles, Silas Malafaia e Marco Feliciano, para os quais os não conservadores, libertários, gramscistas influenciados pela Escola de Frankfurt – mais precisamente pelo filósofo alemão Herbert Marcuse – atentariam contra a família tradicional. E, por isso, precisariam ser aniquilados, como inimigos. 



Daí, a ação quase que coordenada dentro do governo de tentar abafar o contraditório. Como uma espécie de regente da equipe, direto da Virgínia, nos EUA, atua Olavo de Carvalho, ideólogo de expoentes do governo, o presidente incluído.
Operação abafa

Como tática, desta vez mais pragmática do que ideológica, a publicação do vídeo também seria uma maneira de tentar abafar uma série de malogros experimentados pelo governo nos últimos dias. Entre eles, a taxa de aprovação de apenas 38,9% e o depoimento de Fabrício Queiroz confessando a “rachadinha” no gabinete do filho do presidente, Flávio Bolsonaro. 

Principalmente, no entanto, os protestos durante o Carnaval, quando vozes se levantaram contra o mandatário País afora. Ou seja, a pretexto de condenar a pseudo-devassidão dos blocos de rua, ele exibiu mesmo foi seu rancor pelas críticas recebidas pelos foliões. Nas ruas e avenidas, os esquemas de candidaturas laranjas envolvendo gente de confiança de Bolsonaro se transformaram em galhofa. 

Em diversos blocos de ruas, foliões se pintaram de laranja e produziram marchinhas às quais um presidente com menos de três meses de mandato jamais havia se deparado. 

O que era para ser um período de lua de mel com o eleitorado – em geral, os seis primeiros meses depois da posse – se transformou num horror sem fim. Graças à mobilização da oposição e dos adversários do governo? Não. 

Fruto sim de comportamentos dantescos do próprio presidente. Poderia ser cômico, mas é trágico. Com suas próprias mãos, Bolsonaro mina a credibilidade. Estupefatos, integrantes do governo sussurram em meio aos arcos de Niemeyer em Brasília: “É ilimitada a capacidade do presidente de fazer oposição a si próprio”.

Bolsonaro se tornou o único presidente da República que comete calúnia e difamação contra o seu próprio País

Trata-se de um auto-boicote sem precedentes na história. Aos poucos, com seu festival de diatribes, Bolsonaro incorre em atitudes que em outros tempos e outros carnavais foram fatais para ex-presidentes como Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo. 

Ambos duraram em torno de um ano. Mas nem mesmo Jânio, do varre-varre vassourinha, com seu estilo quase chucro representado pela profusão de caspas a escorrer pelos cabelos desalinhados e ombros, nem Collor, que desfilava de camisetas afirmativas e bradava ter “aquilo roxo” enquanto o País caminhava para o vermelho, ousaram chegar tão perto do abismo com as próprias pernas. Passo a passo, o atual presidente constrói o cadafalso de sua ruína.

Reação além-mar

O constrangimento com a divulgação do conteúdo pornográfico extravasou o continente e ganhou o mundo com a mesma força das palavras malfadadas que acompanharam o libidinoso vídeo. Os números são eloqüentes. Foram produzidos 279 artigos sobre o presidente e sua polêmica postagem na mídia em inglês. Em espanhol somaram-se 158 artigos. 

O post mais compartilhado foi o do jornal The New York Times. Segundo a publicação “o presidente da quarta maior democracia do mundo se dedicou a aberrações”. Até o fim da tarde de quarta-feira 6, o post havia registrado quase 100 mil interações no Facebook e Twitter. Brasileiros que moram no exterior relatam que nem o 7×1 foi tão comentado. 

O The Guardian traduziu o tamanho do estrago em poucas palavras: “Bolsonaro foi ridicularizado. Provocou indignação e nojo”. O Daily Mirror fez coro: “Gesto muito obsceno”. A publicação espanhola El País não deixou de carregar nas tintas: 

“A maior economia da América Latina, com seus 200 milhões de habitantes, assiste atônita a outro excesso de um político que havia abaixado o tom que caracterizou sua carreira política até a vitória eleitoral. O mandatário conservador causou vergonha e indignação”. Ao longo da semana, as hashtags #foraBolsonaro e #impeachmentBolsonaro figuraram entre as trending topics mundiais.

No meio político, a repercussão não foi menos catastrófica. No Congresso, parlamentares voltaram a vocalizar a palavra impeachment. Embora seja um movimento que, por hora, paira apenas nos campos das idéias, há quem diga no Parlamento que ele pode ganhar corpo, caso não ocorra uma correção de rota urgente por parte do presidente da República. Ainda não há multidões nas ruas, nem perda de governabilidade, muito menos envolvimento direto do presidente com corrupção – fatores que confluem para uma deposição política. 

Mas há sustentação legal. Segundo especialistas em Direito Constitucional, o que o presidente fez, de maneira impensada ou não, pode configurar quebra de decoro presidencial, passível de perda de mandato com base na lei 1.079/50. 

De acordo com a lei, configura-se crime de responsabilidade atos do Presidente da República que atentarem contra a Constituição Federal e quando o gestor procede “de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”. 

O item é vago e seria um passo arriscado na atual circunstância nacional, mas um dos mentores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT), o jurista Miguel Reale Jr. avalia que haveria elementos para se chegar à medida extrema.

“O caso se enquadra como falta de decoro, o que pode levar ao impeachment. Por que divulgar cenas abjetas para o povo brasileiro?” Ele (Bolsonaro) só pensa em factóide”, condenou Reale Jr. “Com a divulgação, ele deu exposição a um fato restrito, sem nenhuma necessidade: ou seja, ampliou o ato. Algo que seria visto por algumas pessoas foi observado pelo Brasil inteiro”, completou.

Nos bastidores, integrantes da ala militar do governo Bolsonaro já vinham manifestando preocupações com outras atitudes do presidente que contrariavam a chamada liturgia no cargo. A ala militar bolsonarista, por exemplo, ficou extremamente irritada com a foto tirada por Bolsonaro e seus principais ministros, como o ministro-chefe da Casa Civil, em 14 de fevereiro, na qual ele aparecia de chinelo trajando uma camisa pirata do Palmeiras. 

Um interlocutor do Palácio do Planalto admitiu a ISTOÉ, em caráter reservado, que “o presidente precisa se comportar como tal e isso tem de ser corrigido”. Apesar de defenderem publicamente o presidente, integrantes do PSL admitiram intramuros extremo desconforto com o vídeo divulgado. 

De novo: o problema não foi a mensagem, mas como ela foi transmitida. Para eles, Bolsonaro poderia alertar sobre a “promiscuidade” em determinados blocos de Carnaval, mas sem utilizar-se de um vídeo obsceno. 

“Há muitas boas razões para criticar o carnaval, não faltam problemas que poderiam ser evidenciados e evitados. Isso não justifica mostrar uma obscenidade para milhões de famílias por meio de uma rede social sob o pretexto de criticar a festa. Isso não é postura de conservador”, lamentou o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP).

Em aparente tom de desespero e jogando claramente para a plateia, na quinta-feira 7, Bolsonaro disse que vai governar ao lado “daqueles que respeitam a família” e que “democracia só existe se as Forças Armadas assim o quiserem”. Soou como ameaça. A frase é análoga àquela que aponta que só existe segurança urbana se os bandidos quiserem. Inverte-se assim a lógica. 

Só resta agora Bolsonaro pregar a intervenção militar, o fechamento do Congresso e o controle da mídia, consagrando seu pendor autoritário. Vai restando claro que quanto mais o presidente se dedica ao esporte predileto, qual seja, o de tecer comentários destrambelhados e insultuosos nas redes sociais ou mesmo fora delas, mais ele expõe a faceta insolente e de inabilidade para o cargo que ocupa. 

Como Lincoln ensinou, os grandes líderes desenvolvem aptidões de pessoas incomuns. E é isso que se espera de um presidente. Não é isso o que temos hoje.ISTOÉ

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