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domingo, 13 de janeiro de 2019

A POSSE MAIS EMOCIONANTE QUE FOTOGRAFEI FOI A QUE NÃO HOUVE

Por Rogerio Palhano   Postado  domingo, janeiro 13, 2019   Sem Comentários


De Costa e Silva a Bolsonaro, a posse mais emocionante que fotografei foi a que não houve.

Era 1985, e o Brasil estava inteiramente eletrizado, encantado com o fim do regime militar. 

O Colégio Eleitoral havia elegido Tancredo Neves, um democrata. Na véspera da posse, no Santuário Dom Bosco, em Brasília, a crise de Tancredo foi diagnosticada como diverticulite. Registrei as dores dele e, depois, ele subindo a rampa do Palácio do Planalto morto.

Na sequência, a posse do vice, José Sarney, foi muito simbólica. Havia uma resistência dos militares a ele. Já vi muitos homens tremerem, mas nenhum tremeu tanto quanto José Sarney na hora de jurar a Constituição. O peso da responsabilidade caiu sobre seus ombros. A mão balançava. A voz estava trêmula. 

O então presidente, João Baptista Figueiredo, cumpriu o que prometera, e Sarney foi empossado. Mas o general não entregou a faixa. Naquela altura, esse ato era muito simbólico. Imagina: militares devolvendo a faixa para um civil.

Um dia desses, perguntei a Sarney: “Presidente, lembra-se daquele dia, em sua posse, de sua mão tremendo?”. Ele respondeu: “Meu filho, não fica me gozando, não. Vá lá tomar posse. Vim de Pinheiro, interior do Maranhão. O futuro que previam para mim era uma formatura no ginásio. De repente, você está no lugar do Tancredo Neves, substituindo o regime militar”.

Fotografo posses desde 1967, quando o general Artur da Costa e Silva fez um desfile em carro militar. Cheguei à profissão muito cedo, em 1966, aos 16 anos. Anos depois, Costa e Silva teve um derrame que o tirou do poder. Assumiu uma junta militar, sem posse. Veio em seguida Emílio Garrastazu Médici. 

A junta deu posse a ele. Médici terminou o mandato e o passou para o general Ernesto Geisel, um sujeito prussiano, um alemão clássico, fechado, incapaz de ser fotografado sorrindo. Não há uma foto do general Geisel sorrindo.

No governo Geisel, ocorreu a distensão política. Ele passou o mandato para o general Figueiredo, que promoveu a abertura política. O país voltou a respirar ares mais democráticos. E aí veio a posse mais incrível, a que não houve, com Tancredo. 

Depois de Sarney, Fernando Collor de Mello tomou posse em meio ao clima de primeiro presidente eleito pelo voto direto. Ele passou a eleição esculhambando Sarney: “Vou tirar aquele bigode no tapa”, disse. Todo mundo imaginava que Sarney não fosse passar a faixa. Mas ele disse: “Não. Sou um democrata. Não vou dar valor para esses ataques que já passaram”.

Collor se preocupava muito com a imagem. Pela primeira vez, os fotógrafos puderam cobrir os atos de posse no Congresso e no Planalto. Antes, era preciso escolher um dos dois. Ele sofreu o impeachment e não houve cerimônia de posse para Itamar Franco. Mas fiz uma foto em que o Itamar toma posse da cadeira de Fernando Collor. 

É muito interessante, porque é o mesmo cenário que Collor havia deixado. A Itamar, perguntei: “Por que o senhor nunca usou a faixa de presidente? Nem na cerimônia do Sete de Setembro, que é uma ocasião propícia para isso?”. Ele me respondeu: “Não vou usar esse trem, não. Tá doido”. Não há imagem do Itamar com a faixa.

Fernando Henrique Cardoso tirou de letra a posse. Ele já estava acostumado com toda essa coisa cerimonial. Antes de ser presidente, andava nos gabinetes do mundo todo e também nos cafundós do Brasil. Na segunda posse, voltou ao parlatório, peça essencial nas cerimônias de posse. É o primeiro contato da população com o mandatário.

Luiz Inácio Lula da Silva sucedeu a FHC. A euforia com um operário na Presidência foi enorme. Lula recebeu a faixa no parlatório. Para a televisão, era uma oportunidade de mostrar para o Brasil o operário que recebeu a faixa presidencial. Na segunda posse, ele fez questão de descer a rampa e subir novamente, desfilou no Rolls-Royce, ao lado de dona Marisa, vestida de vermelho.

A posse da Dilma Rousseff foi bem solene. Ela recebeu a faixa no parlatório. Quem estava ao lado dela? O vice: Michel Temer. Tenho uma foto em que Lula e Dilma se olham. Lula está colocando a faixa nela. A dois palmos de distância, está Temer olhando, com a boca de lado. Depois do impeachment de Dilma, não houve posse de Temer. Mas há uma foto em que ele está como Itamar, sentado na cadeira.

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