Candidatos ao Governo do Estado, Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) já se enfrentaram três vezes em
debates televisivos até aqui, uma ainda na fase de pré-campanha e duas com a disputa eleitoral oficialmente em andamento. Na primeira delas (TV Band), deu Elmano.Na segunda (O POVO), Ciro. Na terceira (Verdes Mares), empate - a meu juízo, nem o petista nem o tucano se impuseram a seu oponente, com ambos figurando em momentos de protagonismo.
É evidente que cada bloco político da corrida pelo Abolição vai sempre alardear que venceu por goleada, como é de praxe, mas quem assistiu ao embate sai dele com uma impressão mais ou menos formada sobre o desempenho dos líderes das pesquisas. O postulante pode até achar que engana a audiência, mas quem se engana é ele.
Isso é um aspecto. Outro é o seguinte: o debate não se esgota no tempo durante o qual os aspirantes a governador se encaram, atacando-se e defendendo-se. Pelo contrário, a sobrevida do programa se estende para muito além de sua cronologia, replicando-se nos cortes das redes sociais, que são os momentos escolhidos a dedo pela equipe de estratégia a fim de apresentar o candidato no auge do seu brilhantismo retórico-argumentativo - ou de seu gênio da galhofa.
Esses fragmentos, claro, têm sua lógica própria, praticamente recriando o todo do qual ele é parte, dotando-o de um sentido, que normalmente se traduz numa pergunta algo simplista: quem ganhou e quem perdeu a batalha.
Como "ler" o debate
Em resumo: os candidatos não apenas debatem entre si, mas disputam a leitura do debate pelos dias que se seguem, reforçando pontos altos e expondo os escorregões do adversário. Foi assim com Ciro enfatizando uma gafe de Elmano, por exemplo, e do petista acuando o tucano sobre aliados.
De maneira que não soa tão absurdo concluir que, hoje, cada eleitor monta uma imagem do debate a partir do consumo de uma oferta particular de recortes sem nexo com o painel completo - o que vale é o flagrante. E nisso o ex-ministro e o governador têm se destacado, investindo nas trapalhadas que um e outro cometeram até agora.
As dinâmicas
Dos três encontros, o mais inflamado foi o da Verdes Mares (o que não significa que tenha sido o mais propositivo), por duas razões.
Uma é a pressão do calendário (a votação está logo ali). Outra é o formato, com liberdade para trânsito e banco de tempo, duas medidas que conferem maior flexibilidade, mas dão margem a encontrões como os que se viram, com Ciro e Elmano apontando-se na cara, dedos em riste - um episódio que certamente diverte, mas também constrange a quem o testemunha. No geral, trata-se de desenho interessante - pensando no público.
Nem todo mundo, contudo, aceita expor seu candidato a esse tipo de configuração cênica, que exige mais em termos de postura e teatralidade - andar pela cena sem afetar arrogância ou medo, aproximar-se do oponente, administrar a distância e calibrar, além do tempo, uma dosagem equilibrada entre agressividade e placidez. Daí que haja sempre um jogo de forças prévio para definir as regras.
Tentativas em vão...
A grande pergunta, no entanto, é se debate rende voto ou se apenas produz alívio cômico na campanha. Como fã da modalidade, tendo a achar que há uma faixa do eleitorado cujo interesse por esse tipo de programa é genuíno, seja para se informar e assim decidir o voto ainda pendente, seja para espinafrar o oponente, municiando-se para o trabalho de convencimento nos grupos de WhatsApp da família, que costumam ferver neste período do ano.
Num caso ou noutro, os debates acabam por cumprir papel importante. HENRIQUE ARAUJO
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