O assunto central da campanha eleitoral do Ceará é a segurança pública e os últimos dias expuseram a forma como o embate será travado.
Em princípio, seria boa notícia para o governo: a maior apreensão de drogas realizada pela Polícia Civil em muitos anos, com 290 mil pés de maconha encontrados em Acopiara, a 310 quilômetros de Fortaleza. Mas o deputado federal André Fernandes (PL) gravou vídeo no fim de semana e mostrou a plantação abandonada sem vigilância. Falha de segurança tão evidente quanto o estrago pré-eleitoral.
Depois de André, Capitão Wagner (União Brasil) e Ciro Gomes (PSDB) trataram de usar o episódio para questionar a ação governamental — no caso, a falta dela. Não adianta os aliados ficarem incomodados, políticas públicas estão mesmo sujeitas à crítica. Acertada, inclusive.
Para além da questão eleitoral, é preciso investigar de quem foi a falha e se houve dolo, com qual propósito. O caso é sério e as conclusões podem ser mais ainda. Alguém precisa ser responsabilizado.
O retorno das famílias
Em outro episódio relacionado à insegurança, dezenas de famílias retornaram a Uiraponga, distrito de Morada Nova, a 149 quilômetros da Capital, de onde haviam sido expulsas no ano passado por facções criminosas. No sábado, 27, o governador Elmano de Freitas (PT) foi até lá autorizar obras da CE-138 entre o distrito e a sede do Município. Gravou vídeo emotivo com moradores cantando, desafinado: “Eu voltei agora pra ficar/Porque aqui, aqui é meu lugar/Eu voltei pras coisas que eu deixei”.
No ano passado, Capitão Wagner e André Fernandes também foram até lá, fizeram vídeos e expuseram nas redes sociais.
O nome da música, de Roberto Carlos, cantada pelo governador no vídeo é “O portão”. Algo do qual se sentiu falta na plantação de maconha, aliás.
Comando da pauta
O retorno dos moradores expulsos de casa é uma boa resposta à oposição. Mas é isso: uma resposta. O governo acaba ficando a reboque na pauta, comandada pelos adversários.
No episódio da plantação deixada ao léu, era um potencial trunfo, no qual a iniciativa era do Estado, mas foi entregue como arma poderosa à oposição.
Em campanha, quem consegue ditar o ritmo das discussões tem vantagem. É difícil para a situação comandar o debate sobre segurança. Falar do retorno das famílias implica colocar na discussão as expulsões anteriores pelos criminosos. Mas o fato já era mesmo evidente, então é melhor ter pelo menos satisfação a dar.
Dizer que menos gente morreu assassinada é positivo, mas não se comemora número de homicídios, mesmo em queda. Pois, além do mais, segue na casa dos milhares.
O tema é desafiador para quem está no poder, a crise não está debelada. A oposição continua a se aproveitar. A crítica é legítima, até necessária. O governo começa a apresentar sinais de avanços, cuja consistência ainda será posta à prova.
A base aliada, porém, segue sem assumir o comando da agenda na discussão pública do tema, algo realmente difícil de ser feito. A melhora em indicadores e resultados não tem afetado a capacidade adversária de conduzir esse tema nas redes sociais.
Quando o governo celebra apreensão recorde e deixa a droga abandonada a seguir, facilita bastante a vida da oposição.ÉRICO FIRMO


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