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domingo, 19 de abril de 2020

A TROCA DO MINISTRO

Por ipuemfoco   Postado  domingo, abril 19, 2020   Sem Comentários


Com a nomeação do oncologista Nelson Teich para substituir Luiz Henrique Mandetta, Jair Bolsonaro tentou conseguir um feito quase impossível: escolher um nome com credibilidade
e alinhado com as recomendações da OMS, e ao mesmo tempo flexível às suas ideias regressivas e anticientíficas — como o relaxamento da quarentena e a pregação da cloroquina como solução milagrosa. Foi uma escolha bem difícil. 

Teich colaborou na transição de Bolsonaro e tem o apoio de Paulo Guedes e dos militares. Apesar do suporte da ala ideológica, como o chefe da comunicação, Fábio Wajngarten, defendeu o isolamento horizontal e criticou recentemente a politização do tema. Já elogiou a atuação de Mandetta (“perfeita”) e é partidário da testagem em massa para “achatar” a curva de contaminação e dar tempo às redes pública e privada se prepararem. 

Empreendedor e empresário da área, chegou a ser cotado para o Ministério antes da posse de Bolsonaro, mas foi preterido por Mandetta — que havia sido colega de Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Carioca, é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da Covid-19, e com a possibilidade do SUS não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. 

Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, publicou recentemente nas redes sociais. O oncologista bateu nomes como Cláudio Lottenberg, presidente do Conselho do Hospital Albert Einstein. 

No dia em que foi confirmado, o País registrou 188 mortes, totalizando 1.924 óbitos. A delicadeza é que Bolsonaro tinha o poder de escolher o nome de sua preferência, mas não pode mudar a política do Ministério da Saúde. Ficou ainda mais acuado com a decisão unânime do STF, na quarta-feira, 15, estabelecendo que governadores e prefeitos podem decretar o isolamento social independentemente da posição do governo federal.

Ao mesmo tempo em que Mandetta fazia um discurso de despedida emocionado no Ministério da Saúde, Bolsonaro anunciou o novo ministro do Planalto. Houve panelaços. O presidente afirmou que a saída de Mandetta foi um “divórcio consensual”. Também disse que havia discutido a flexibilização do isolamento com o novo titular. Com a troca, o governo Bolsonaro fica ainda mais à prova. 

O ex-ministro cumpriu um difícil ritual de saída na última semana, enquanto aguardava sua substituição. As últimas entrevistas foram em tom de despedida, enquanto ainda tentava defender as principais bandeiras do Ministério da Saúde: o isolamento social e o cuidado com drogas sem efeito comprovado. 

São justamente esses dois pontos que representavam a maior dificuldade para Jair Bolsonaro selecionar o novo ministro. A demissão de Mandetta, um ministro bem-sucedido nos esforços contra a pandemia, comprova que o presidente não tolera quadros técnicos capazes de lhe fazer sombra. 

Já há um histórico de nomes com esse perfil defenestrados, paradoxalmente, exatamente por sua competência, como o cientista Ricardo Falcão (ex-diretor do Inpe) e, mais recentemente, Olivaldi Alves Borges Azevedo (ex-diretor de Proteção Ambiental Ibama), exonerado porque coordenava uma ação contra garimpeiros ilegais em terras indígenas e procurava preservar índios do novo coronavírus. 

Outros ainda se sustentam no governo, mas precisam contornar as investidas do chefe e os ataques das milícias orquestradas pelo gabinete do ódio. É o caso dos ministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública).

Mandetta herói e político

Mandetta havia ganhado uma importante queda de braço contra o presidente no dia 6, quando desafiou o presidente. Mas sua situação ficou insustentável após criticar Bolsonaro no programa Fantástico, no domingo, 12. “O brasileiro não sabe se escuta o ministro da Saúde, o presidente, quem é que ele escuta”, disse. 

A declaração foi interpretada como uma quebra de hierarquia, e o núcleo militar tirou o seu apoio. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, resumiu: “Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Ele fez uma falta. Merecia cartão”. Também pesou contra Mandetta a forma como se deu a entrevista. Ocorreu no Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano. 

Ele era convidado do governador Ronaldo Caiado, seu aliado do DEM, rompido com o presidente. Simbolicamente, Mandetta trocou sua luta pela saúde por um comício político. Colocou em primeiro plano suas pretensões eleitorais — que podem incluir o governo do Mato Grosso do Sul ou de Goiás. Avalizado pelos militares, Bolsonaro sentiu que era o momento do bote. 

Para isso, saiu em busca de um nome que não aprofunde ainda mais sua imagem de vilão nas ações contra a doença. Teich precisará achar o duro equilíbrio de defender medidas pró-vida sem desagradar o presidente, obcecado pela reeleição e por conspirações imaginárias.

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