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domingo, 10 de outubro de 2021

O NAUFRÁGIO PELA ECONOMIA

Por ipuemfoco   Postado  domingo, outubro 10, 2021   Sem Comentários

 


Os anos Bolsonaro são marcados pela volta da inflação, pelo desemprego recorde e pela alta da miséria. 

Especialistas não veem mais espaço para reverter tantos indicadores negativos, o que praticamente elimina a chance de reeleição.

Em política, já virou um truísmo a previsão de que o estado da economia determina o destino do governante. Se ela vai bem, ele pavimentou o caminho para continuar no poder. Se vai mal, não há força capaz de sustentá-lo. Jair Bolsonaro não é exceção, mas o caso dele é especialmente grave. 


A impressionante coleção de más notícias numa área tão sensível obrigará o presidente a acertar contas com sua gestão, que foi paupérrima em realizações, apesar de rica em ataques e ameaças golpistas. Ele colhe resultados decepcionantes, pois nunca se preocupou em plantar resultados.


É uma tempestade perfeita. A inflação se aproxima dos dois dígitos e já atinge níveis que não eram vistos desde que o plano real estabilizou a moeda, há mais de 20 anos. A alta de preços para os pobres já ultrapassou 10% em 12 meses. O IGP-M, que regula o reajuste dos aluguéis, subiu quase 34% em doze meses. A disparada do dólar supera 40% desde o início da gestão. Na última semana, passou a barreira dos R$ 5,50, alcançando o maior valor desde 2014. 


O real é a moeda que mais se desvalorizou desde o início da pandemia, segundo o FMI. E esses números acontecem na contramão do discurso oficial. Há dois anos, o ministro Paulo Guedes prometeu uma revolução de energia barata. Mas o consumidor sentiu o contrário. A gasolina também subiu mais de 40% desde janeiro de 2019, atingido o maior valor desde 2003. O preço médio do botijão de gás, igualmente, é o maior dos últimos 20 anos.

“BOLSOCARO” Lambe-lambe na avenida Paulista, em São Paulo, critica a explosão de preços dos alimentos e dos combustíveis (Crédito:Roberto Parizotti )


Ao invés de reconhecer o problema, Bolsonaro faz o que está acostumado: transfere a responsabilidade e parte para o ataque. Desta vez, os governadores serviram de bode expiatório. Para avançar sobre seus adversários, o presidente contou com a ajuda marota do presidente da Câmara.

Ardil contra governadores

Arthur Lira sugeriu um projeto para mudar o cálculo do ICMS e diminuir o imposto arrecadado por estados e municípios com os combustíveis. Trata-se apenas de uma cortina de fumaça, uma manobra que terá pouco impacto nas bombas. Antes disso, o chefe do Executivo pressionou o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, para conter as altas, motivo que já havia levado à demissão de Roberto Castello Branco. 


Não teve sucesso, e Silva e Luna reafirmou que não vai alterar a política de reajustes, alinhada com os preços internacionais. É um mau sinal para o presidente. Com a alta do dólar e do petróleo, a defasagem nos preços da gasolina já supera 22%, calculam especialistas. Não há truque que contenha a alta dos combustíveis.

SEM SAÍDA Paulo Guedes tenta viabilizar programas populistas (Crédito:Mateus Bonomi /)

Parte desse aumento é resultado da mudança no cenário internacional. Com a retomada após a pandemia, há um desequilíbrio no fornecimento de matérias-primas e commodities. A Opep decidiu, nos últimos dias, manter uma ampliação discreta na produção do petróleo, frustrando aqueles que esperavam uma reação mais forte. Com esse descompasso, o preço do dele está no nível mais alto dos últimos três anos. 


Há uma crise de energia nos países desenvolvidos, e a substituição de insumos poluentes, como o carvão, tem derrubado a expectativa de crescimento da China, diminuindo o preço do minério de ferro exportado pelo Brasil. Cadeias globais de produção foram impactadas, causando falta de chips e a interrupção na produção industrial – as montadoras brasileiras estão particularmente afetadas por isso. No setor de logística, a escassez de contêineres deve diminuir em US$ 1 bilhão a receita das exportações do agronegócio brasileiro, e isso só será revertido no final do próximo ano. 


O risco de inflação no mundo está levando os países a reverem os gigantescos estímulos monetários promovidos durante a pandemia — os EUA devem liderar esse movimento em breve.


Mas os reveses no exterior não justificam a crise no País nem a frustração com o baixo crescimento. No próximo ano, o mercado ainda projeta um crescimento de 1,57% no PIB, segundo levantamento do Banco Central. Mas instituições importantes já acreditam que ele não vai avançar além de 0,5%. Mesmo estimando que a expansão brasileira será de 1,8% em 2022, a ONU calcula que será o pior resultado entre as grandes economias, que devem subir 3,6%. O Banco Mundial diz que o Brasil terá a menor expansão de toda a América Latina.

TÁBUA DE SALVAÇÃO Para recuperar a popularidade, Bolsonaro estuda prolongar o Auxílio Emergencial (Crédito:Divulgação)

Isso acontece exclusivamente pelos erros cometidos pelo presidente e pelo ministro da Economia, que subestimou a pandemia, desconsiderou a dificuldade de aprovar reformas e tem feito previsões delirantes desde o início da gestão. Como tábua de salvação para o governo, o presidente da Câmara tem proposto nos bastidores que Bolsonaro use o caixa da Petrobras para conter a alta dos preços e financiar programas eleitoreiros e obras que garantam sua reeleição. Uso tão irresponsável da companhia só aconteceu no escândalo do Petrolão. A perspectiva de um calote nos precatórios e de abandono da responsabilidade fiscal para acomodar programas populistas, como o Auxílio Brasil e o próprio subsídio aos combustíveis, tem feito crescer a incerteza econômica. O risco-país é um bom indicador dessa percepção negativa entre os investidores. O CDS de 5 anos, ativo usado como referência contra a possibilidade de calote na dívida pública, subiu mais de 40% este ano. 


E ainda há a crise hídrica, com a possibilidade de racionamento e apagões. Esse quadro já faz especialistas alertarem para o risco de estagflação, a perversa combinação de inflação e estagnação. “A discussão não é se vai entrar ou se já está nesse estágio, mas o quanto está indo nessa direção. E isso é inequívoco”, diz o economista Filipe Campante, professor da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Incerteza em alta

O momento atual é comparável apenas à derrocada do governo Dilma, à crise global de 2008 e à eleição de 2002, diz a economista Anna Carolina Gouveia, do Ibre-FGV. Para ela, a incerteza por conta da pandemia deu lugar à incerteza política e à inflação. A especialista alerta que a crise política impacta a questão monetária. 


“Esse cenário afeta até mesmo o instrumento de combate à inflação que o BC tem usado”, diz. Para conter a corrosão do poder aquisitivo, o BC foi obrigado a interromper o ciclo de queda das taxas de juros, elevando a Selic em 4,25 pontos percentuais em sete meses, o que também conterá o crescimento em 2022.


“A escolha do governo em valorizar o câmbio sem ter base na poupança fez com que a inflação subisse muito”, critica o economista Roberto Ellery Jr., da UnB. Ele condena o atual populismo econômico. Para ele, a situação é dramática porque não há confiança na política fiscal e, ao mesmo tempo, a inflação cresce. 


“Esse cenário é resultado de outro populismo, o fiscal: o Banco Central manteve os juros baixos por muito tempo. A inflação só reflete essa sequência de erros”, afirma. Como outros economistas, ele critica as tentativas de driblar as regras fiscais. Lembra que o teto de gastos foi criado justamente para evitar que governos gastassem muito por objetivos questionáveis. 


O orçamento também está sendo atropelado pela lei, já aprovada, que permite usar receitas previstas (ainda não existentes) para bancar aumentos de gastos. É o truque concebido pelo governo para driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal e pedalar as contas públicas sem ser acusado de praticar um crime de responsabilidade. 


“O governo quer quebrar qualquer limite fiscal, mas evitando deixar isso claro. O mercado, que não é bobo, já percebeu”, diz o professor da UnB.


As tentativas desesperadas da equipe econômica em encontrar soluções de última hora para tirar o presidente das cordas só piora a situação. “Todas as decisões do governo são tomadas de improviso. Os problemas vão surgindo e eles vão tentando tapar os buracos, mas daí outros vão aparecendo e eles ficam batendo cabeça. Não sabem administrar”, resume a economista Júlia Braga, da Universidade Federal Fluminense (UFF). “As decisões são sempre gambiarras, medidas de curto prazo sem prioridades ou planos. Qualquer coisa que o governo faça será ruim”, concorda Campante.


A economia e a pobreza são os maiores obstáculos para a reeleição do presidente, aponta uma pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a consultoria Quaest. Nada menos que 69% dos entrevistados acham que a situação econômica do País piorou. A crise atinge os pobres de forma mais aguda, e é nessa faixa que a popularidade do presidente mais cai. Nos anos Bolsonaro, a proporção de famílias endividadas saltou de 59,8% para 74%. 


O número de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza disparou de 23,3 milhões para 34,3 milhões, alta de 47%. E o desemprego bateu recorde, chegando a cerca de 14 milhões de pessoas. O plano real na gestão FHC e o boom das commodities no governo Lula fizeram os pobres se alimentar melhor. Os anos Bolsonaro fizeram eles voltarem a disputar ossos e comer pé de galinha.

CORRIDA Motoristas tentam se antecipar à alta dos preços da gasolina em Recife (Crédito:Agencia Enquadrar)

O descaso com a desigualdade e as manobras populistas não vão reverter um quadro que já parece irreversível. E as más notícias não param. Segundo o IBGE, as vendas no varejo recuaram 3,1% em agosto, na comparação com julho, pior resultado para o mês desde 2000. A produção industrial caiu 0,7% em agosto, a terceira queda consecutiva. O setor recuou para um patamar 2,9% abaixo do nível pré-pandemia. Um dos argumentos usados por governistas para justificar o dólar supervalorizado era exatamente impulsionar a indústria. O resultado foi mais inflação e desindustrialização.


Com esse tsunami de dados negativos, o cenário para o presidente é o pior possível, afirma o cientista político Paulo Nicolli Ramírez. Isso coloca em xeque até mesmo a possibilidade de ele se candidatar, porque quanto pior a economia estiver, mais os partidos vão se afastar. A tendência é que vá se isolando cada vez mais e chegue muito desidratado às eleições. A menos de um ano do pleito, as suas opções são cada vez mais limitadas. 


O fiasco na economia se soma à gestão desastrosa na pandemia. E ele saiu enfraquecido após o Sete de Setembro. “A falta de adesão dos militares e das polícias às manifestações, além da reação forte do STF e do Congresso, fizeram com ele se isolasse”, avalia Ramírez. O peso das suas propostas ficou muito menor do que era antes, o que também diminuiu seu poder de barganha. 


A revelação de que Paulo Guedes se beneficiou com a alta do dólar por meio de fundos em uma offshore também diminui a sua já estreita margem para negociar. A agenda de reformas do ministro virou letra morta. Com o Congresso nas mãos do Centrão, é até melhor que nenhuma mudança aconteça, dizem especialistas. 


É o caso da própria reforma do Imposto de Renda. “Qualquer coisa que Bolsonaro faça agora para tentar melhorar sua popularidade será em vão. Mesmo que ele faça manobras orçamentárias, isso não ajudará mais no projeto de reeleição”, diz Júlia Braga, da UFF.

MANOBRA O presidente da Câmara, Arthur Lira, propôs tirar impostos dos estados e municípios (Crédito:Michel Jesus)

No final, comprovando a tese, é a economia que vai determinar o destino de Bolsonaro. Tem sido assim com todos os presidentes desde a redemocratização. O impeachment de Fernando Collor foi impulsionado pelo fracasso em enfrentar a hiperinflação. O de Dilma Rousseff aconteceu na maior recessão da história do País. FHC perdeu a chance de fazer o sucessor pelas crises externas que atingiram seu segundo mandato, incluindo uma maxidesvalorização do real. 


E Lula conseguiu se reeleger, apesar do Mensalão, porque surfou na bonança mundial dos anos 2000 (tem a seu favor o fato de ter seguido a política econômica dos criadores do real). Mas Bolsonaro terá muito mais dificuldades que seus antecessores. 


Entrará no último ano de mandato numa condição muito pior que eles, e pode se tornar o primeiro presidente da redemocratização a falhar em se manter no posto. Qualquer governante sabe que deve lidar com o imponderável. Para ele, esse resultado era previsível.ISTOÉ

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