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sexta-feira, 15 de março de 2019

OS CONSTRANGEDORES LAÇOS DA MILÍCIA COM O PODER

Por Rogerio Palhano   Postado  sexta-feira, março 15, 2019   Sem Comentários


A prisão de dois suspeitos da execução da vereadora Marielle Franco e da morte do motorista Anderson Gomes
mostra que a força paralela das milícias domina cada vez mais os espaços criados pela leniência e corrupção da administração pública.

Faltando quarenta e oito horas para que se completasse um ano da execução da vereadora Marielle Franco, dois suspeitos foram presos na terça-feira 12 pela Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro, após exaustiva investigação que se valeu desde a simples denúncia anônima até a mais sofisticada tecnologia de recuperação de dados de aplicativos. 

As prisões pontuam, de forma constrangedora à sociedade brasileira e ameaçadora à democracia e ao Estado de Direito, os laços das milícias com o poder. Segundo o MP, foi o sargento aposentado da Polícia Militar Ronnie Lessa, antigo frequentador dos registros policiais por envolvimento em pesados crimes, quem disparou a submetralhadora que cravou três balas na cabeça e uma no pescoço da vereadora. 

No atentado morreu também o motorista de Marielle, Anderson Gomes. O outro suspeito preso é o ex-policial militar Élcio Queiroz (expulso da corporação por envolvimento com milicianos, tráfico de drogas e exploração de jogos de azar), que dirigia o carro do qual Ronnie atirou.

Pobre, negra, lésbica, socióloga, feminista e defensora dos direitos humanos. Marielle nasceu na favela e chegou à vereança. As milícias não podiam tolerá-la

O crime e as prisões expuseram nua e cruamente a invasão dos tentáculos das milícias na vida pública do País. Por ser nada menos que o primeiro mandatário do Brasil, era impossível que o nome do presidente Jair Bolsonaro não surgisse na mídia (como surgiria, por exemplo, o de um astro da música ou do futebol), uma vez que Ronnie era seu vizinho na rua C do condomínio Vivendas da Barra, no bairro da Barra da Tijuca. 

Isso, claro, foi antes de ele ser eleito e mudar-se para o Palácio da Alvorada. Não se pode afirmar que o presidente da República, Jair Bolsonaro, tenha a ver com a morte de Marielle ou de Anderson. Nem pode escolher a sua vizinhança. Algumas questões, no entanto, naturalmente se impõem, e ao País é dado o direito constitucional de obter respostas.

“Não me lembro desse cara”

O condomínio reúne apenas cinquenta residências e cada uma vale em média R$ 3 milhões. Bolsonaro nunca se perguntou como um homem do tipo de Ronnie, egresso do Exército e aposentado da PM, com salário de R$ 7,5 mil, podia estar morando num local tão caro e ser dono de um carro Infiniti FX35 que custa aproximadamente R$ 120 mil? 

Mais: defensor da boa formação familiar e dos bons costumes, o presidente nunca se preocupou em saber como era o funcionamento da família de Ronnie ou em que ele trabalhava, já que um de seus filhos, segundo a polícia, teria namorado a filha do sargento aposentado? 

Bolsonaro, frise-se, não guarda relação com Ronnie ou com os assassinatos e nem poderia determinar quem moraria ou não a cem metros de sua casa. “Não me lembro desse cara”, disse o presidente. 

A rigor, é como se as questões aventadas se colocassem pelo avesso: a presença de um desclassificado social como Ronnie no Vivendas da Barra é a indesejável trilha de aproximação das milícias com os círculos do poder — fenômeno, alias, endêmico no Rio de Janeiro, herança do fato de o estado ter sido um dia a capital do País.

Por uma infeliz coincidência, também o outro suspeito, Élcio Queiroz, foi ao menos apresentado a Jair Bolsonaro, em 2011, ano em que ambos teriam tirado uma foto abraçados, segundo a polícia. “Tenho foto com milhares de policiais civis ou militares de todo o Brasil”, declarou Bolsonaro. 

Mais cuidadoso e zeloso de sua imagem, isso sim ele poderia ser. Os embaraçosos laços das milícias com o poder já vêm se delineando desde o início do ano quando Bolsonaro, ao registrar sua candidatura, declarou ser dono de duas vans de transporte público, serviço que notoriamente é explorado pelas milícias — o que, mais uma vez, não significa que ele tenha se beneficiado disso. 

Um desses carros foi vendido ao ex-militar da brigada de infantaria paraquedista Jaci dos Santos, ex-funcionário do gabinete de Flávio Bolsonaro. Alguns dos perigosos laços, aliás, foram estreitados pelo agora senador Flávio e noticiados com exclusividade por ISTOÉ. 

Quando era deputado estadual, ele concedeu ao policial militar Adriano da Nóbrega a Medalha Tiradentes, mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Nóbrega, amigo de Ronnie, é acusado de integrar a sanguinária milícia de Rio das Pedras. 

Mais: Flávio já empregou em seu gabinete a mãe e mulher de Nóbrega, hoje foragido da polícia. Além disso, Valdenice Meliga, irmã de milicianos presos, chegou a subscrever cheques em nome do ex-deputado – algo, no mínimo, constrangedor.

E os mandantes?

As investigações sobre Ronnie, comandadas pelo delegado Giniton Lages, começaram em outubro. Lages foi afastado e fará curso de intercâmbio profissional na Itália. Cabe lembrar que ele é acusado de pressionar antigos suspeitos a confessarem. 

Já Élcio, recém-expulso do DEM, partido ao qual era filiado, entrou na mira das averiguações pouco depois. Os dois milicianos são amigos e competem para ver quem manterá na vida a maior “capivara” policial (ficha com o número de crimes cometidos). Ronnie, que também está envolvido na morte da juíza Patrícia Aciolli — combativa magistrada contra as milícias — com certeza será o campeão. 

Tem a funesta fama de exímio matador, mas comete o erro de ser “língua sem osso”, expressão que na bandidagem miliciana significa falar muito e, sem dúvida, essa foi a razão do atentado a tiros (queima de arquivo) que sofreu em abril do ano passado, um mês após ter matado Marielle. Um atentado anterior, em 2009, deixou-o sem uma perna.

Nos últimos anos, assiste-se no Rio de Janeiro ao crescimento de milícias e do crime organizado e, igualmente, ao estreitamento de suas relações com a política, chegando ao ponto de bandidos indicarem policiais que lhes prestam favores para trabalhar em determinadas delegacias. 

O poder público, devido à leniência e à corrupção, quando subordinado a marginais, os enriquece, e, prova disso, são os carros, iate e casa em Angra dos Reis pertencentes ao matador Ronnie e a outros tantos milicianos. Diante de toda essa situação, autoridades em geral devem uma infinidade de providências e respostas aos brasileiros e, no caso pontual de Marielle e Anderson, precisam prender os mentores do crime. 

Élcio e Ronnie, na análise do MP, têm “obsessão” contra políticos de esquerda como Marielle. Ocorre, porém, que acreditar que ambos agiram por conta própria é considerar que o caso está encerrado. Milícias se nutrem de claros objetivos políticos em seus cruzamentos com o poder ou não se transformariam em um forte poder paralelo. 

A motivação da morte de Marielle Franco é política, o crime é político. Que a resposta sobre os mandantes nos venha bem antes de se completar o segundo ano do assassinato.

“Anjo Negro”

Aquilo que parecia inimaginável tornou-se uma trágica e criminosa realidade que mudou os rumos da República no Brasil. Trata-se de um crime ocorrido no quintal do Poder. Na madrugada de 5 de agosto de 1954 o político e jornalista Carlos Lacerda sofreu um atentado a tiros em frente à sua residência no número 180 da rua Tonelero, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. 

Lacerda chegara ao local com seu filho de quinze anos e de carona no automóvel do major da Aeronáutica Rubens Vaz. Ele, Lacerda, era a voz que se erguia no mais forte e alto tom contra o então presidente Getúlio Vargas, criando em seu jornal, “Tribuna da Imprensa”, a expressão “mar de lama” para qualificar a gestão getulista.

O atirador errou o alvo e atingiu fatalmente o major no peito. Lacerda correu com o filho para o interior da casa, estava armado e retornou atirando. Foi ferido no pé. As investigações ficaram por conta da Aeronáutica no procedimento que entrou para a história como “República do Galeão”, uma vez que a FAB montou uma espécie de delegacia no aeroporto homônimo. 


Chegou-se em pouco tempo ao executor do atentado e ao seu mentor: respectivamente, Climério Euribes de Almeida e Gregório Fortunato, ambos integrantes de destaque da equipe de segurança particular de Getúlio Vargas – Gregório era o chefe, conhecido à época como “Anjo Negro”. 

O criminoso episódio marcou o início da derrocada do governo de Vargas. Dezenove dias depois, o presidente suicidou-se. Vargas jamais mandara alguém matar Lacerda. E foi, isso sim, devorado pelos pistoleiros dos quais se cercou.

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