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domingo, 24 de fevereiro de 2019

PORQUE POLÍTICOS MENTEM EM SEUS CURRÍCULOS??

Por Rogerio Palhano   Postado  domingo, fevereiro 24, 2019   Sem Comentários


Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, não fez mestrado em Direito Público em Yale, informa universidade americana.


O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, usa ternos bem cortados, óculos com aros de tartaruga, relógios caros, sabe conjugar verbos e costuma acertar o uso do plural. Destoa, portanto, de seus colegas de governo e sobretudo de seu chefe, cuja eloquência não resiste a mensagens de áudio de mais de um minuto no Whatsapp. 

Membro de uma família de advogados de São Paulo, graduado em Direito, tinha credenciais e physique du rôle adequados ao pedigree de “mestre em Direito Público em Yale”, informação presente na assinatura de seus artigos desde 2012. 

Segundo texto publicado hoje no site Intercept , porém, o ministro jamais frequentou a prestigiosa universidade americana. A assessoria de comunicação de Yale foi consultada e revelou desconhecer o rastro do ilustre estudante. Salles ainda não se pronunciou sobre o caso. Mas essa linha garbosa em seu currículo tem toda pinta de cascata. 

Não é a primeira desse tipo no governo Bolsonaro. A titular do ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, declarou-se mestre em Educação, Direito Constitucional e da Família. Questionada pela Folha de S. Paulo sobre a origem do diploma, voltou atrás e se disse mestre “no sentido de que são mestres todos os que interpretam a Bíblia.” 

O governo Bolsonaro não inventou o currículo mentiroso. Nos anos petistas, a praxe também vicejava. A própria Dilma Rousseff foi pega no pulo em 2009, ainda como ministra, ao se declarar mestre em Economia pela Unicamp. 

Ela tinha cursado algumas disciplinas, mas não chegou a defender a dissertação. Também o chanceler Celso Amorim declarava na página do Itamaraty ser doutor pela London School of Economics. Assim como Dilma, cursara algumas disciplinas, mas não defendeu a tese. 

É possível tirar ao menos duas conclusões sobre essa mitomania curricular. A primeira, e mais óbvia, mostra que as universidades seguem firmes como chancela de credibilidade intelectual. Os financiamentos a pesquisadores podem andar aos pandarecos. 

A produção científica pode seguir inacessível, os salários de professores aviltados, as instalações deterioradas, os insights de Kim Kataguiri e Alexandre Frota sobre Marx podem encontrar adeptos. Mas quando uma figura pública quer lustrar sua biografia e autoimagem, ela, a universidade, continua ali, intacta como indutora de prestígio. 

A outra conclusão, menos imediata, indica que essas mentiras têm significados diferentes. Dilma queria ser vista como economista da linha desenvolvimentista da Unicamp. O título acadêmico a situaria em pé de igualdade com os professores que lhe serviam de modelo e daria mais credibilidade a sua gestão na área. Amorim se pavoneava com o deslumbramento típico das altas instâncias do Itamaraty por indicadores de prestígio intelectual. 

Já os intrépidos Salles e Damares são de mais difícil decifração. Por que desejam ostentar um título que o governo a que servem despreza? A era Bolsonaro inaugurou o desrespeito pela atividade intelectual legítima: não por acaso a imprensa séria e as universidades públicas são anátema para os cães de guarda do presidente. De que vale um título de doutor da USP para quem reduz a universidade pública à condição de propagadora de marxismo cultural? 

O mesmo esgar de desprezo que um bolsonarista exprime diante da USP, um norte-americano defensor de Trump emite diante da menção a Yale ou suas equivalentes. São todos redutos da elite globalista, de costas para os problemas do trabalhador real. 

O ministro da economia, Paulo Guedes, tem doutorado em Chicago mas já deixou de lado a carreira acadêmica, marcada pelo ressentimento com as figuras bem-sucedidas da Casa das Garças. O chanceler Ernesto Araújo gosta de citar Wittgenstein, mas curte mesmo os vídeos do youtubber e amigão Olavo de Carvalho. 

Ricardo Salles, jovem, com sua ambição por holofote e vaidade de paulistano bem-nascido, poderia representar alguma reserva de seriedade intelectual desse governo, quem sabe até uma ponte com um setor do empresariado e do mercado financeiro que tem dificuldade de engolir a jequice de Bolsonaro, ainda que comungue de seus valores. 

Mas não é preciso ter estudado em Yale para notar que ele não vai por esse caminho. 
* Flávio Moura é editor da Todavia

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