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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

BRASIL; COZINHEIRA CONTA COMO SE TORNOU LARANJA DE POLÍTICO

Por Rogerio Palhano   Postado  quinta-feira, fevereiro 07, 2019   Sem Comentários


Sou apenas uma mulher que saiu jovem do interior do Nordeste com a esperança de mudar de vida, deixar a pobreza e conseguir algo melhor para minha família.
Meu caminho até Brasília não foi fácil. É assim com todas as pessoas que vêm para cá com a esperança de uma vida melhor e, principalmente, para alguém com pouco estudo.

Logo percebi que, por mais difícil que fosse, nada seria pior do que a miséria em que eu vivia antes, sem dinheiro para nada, nem para comprar arroz. 

Sempre trabalhei muito com cozinha, por isso enxerguei nesse ramo uma oportunidade de ganhar a vida honestamente em Brasília, porque sou, acima de tudo, uma pessoa honesta, nunca quis ter nada além do que ganho com meu suor. Nunca imaginei que fosse passar a ser considerada “laranja” de qualquer pessoa, até que minha vida cruzou com a de um deputado.

Assim que cheguei à Capital Federal, tinha vergonha, porque sempre fui tímida, de pisar nos espaços públicos, como nos anexos da Câmara Federal, onde circulam os deputados, por exemplo. Parece que não é lugar para gente pobre, sabe? O brasileiro simples, humilde, apesar de pagar seus impostos, sempre é levado a crer que as repartições públicas pertencem aos políticos e ao Estado. Ou seja, que não é lugar para pobre pisar.

Minha visão começou a mudar quando comecei a vender quentinhas na porta do Congresso, no ano de 1997. Logo depois de me instalar por aqui, comecei a circular pelas dependências da Câmara para fazer a entrega das marmitas. Tive contato com muitos funcionários, assessores, políticos... Eles sempre me trataram muito bem. Eu gostava daquele clima da política, mas de longe não era um lugar das relações mais honestas.

Isso ficou claro quando montei minha barraca para vender comida, pois os políticos queriam ganhar em cima de mim de alguma forma. Sempre usando a conversa do despejo, pois eu estava em área considerada irregular. 

Mesmo com a barraca, continuava e continuo atendendo dentro do Congresso, pois lá tenho minha clientela fiel. Parte de minha barraca, que tem o tamanho de um carro, continua em cima da calçada. O governo, no final dos anos 90, queria tirá-la daqui. Queriam arrancar meu ganha-pão do lugar e me mandar não sei para onde.

Até que um deputado que era meu cliente ofereceu ajuda. Eu e meus vizinhos de comércio aceitamos, pois não tínhamos saída. Ele disse que olharia por nós, pois éramos pessoas batalhadoras, apesar de estarmos de forma irregular. Depois de um tempo, o assessor do tal deputado veio aqui na barraca pegar meus documentos. 

Foi aí que começou a parte em que virei “laranja” sem saber. Essa parte eu não falo, pois foi um trauma na minha vida. Foi no ano de 2007. Só digo que eu e meu nome fomos usados. Fui usada. Saiu em jornal, na época, e minha vida foi destruída. Meus colegas de trabalho queriam me expulsar deste local, pois a clientela deixou de aparecer.

Como não tinha outra forma de renda, e tinha um filho para sustentar, resisti e fiquei. Por três ou quatro anos meu apelido foi “laranjinha”. Só de relembrar esse episódio que estava enterrado começo a tremer. Por isso não quero ser identificada. 

Até hoje nunca mais fui a mesma. Veio a depressão, ganhei peso e fiquei com pressão alta e diabetes. Não conseguia fazer nada, tinha medo e vergonha de sair de casa — apesar de me considerar uma pessoa honesta, que nunca ganhou dinheiro de forma ilegal. Nunca tive coragem de dar queixa na polícia com medo de meu nome ser exposto de novo. Me dá medo só de pensar.

Faz 21 anos que trabalho neste mesmo local, cozinhando marmitas. Faço preparados especiais com salada, carne, arroz e feijão. Comida simples, caseira, que as pessoas adoram. Mesmo doente, insisto em trabalhar. 


As pessoas já se esqueceram daquele episódio, que foi muito difícil. Ninguém mais comenta. Tive um filho, ele conseguiu estudar e hoje tem um bom emprego. Ele pensa em me tirar daqui, mas ainda dependo da barraca para meu sustento e o de meu marido. 

Nunca ganhei dinheiro sujo nenhum. Sempre fui pobre, moradora de um bairro pobre de uma cidade do entorno de Brasília. Mesmo assim, quando meu nome saiu no jornal, me julgaram, achando que eu tinha ganhado muito dinheiro de forma ilegal. Nada disso é verdade.

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