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sábado, 16 de fevereiro de 2019

BOLSONARO NÃO É MUJICA.O SEGREDO DA SIMPLICIDADE É A DIGNIDADE

Por Rogerio Palhano   Postado  sábado, fevereiro 16, 2019   Sem Comentários



De toda sua atribulada passagem pela presidência do Brasil, seguramente o imortal José Sarney será lembrado por ter cunhado uma expressão em que definia o respeito aos
aspectos formais exigidos de quem ocupa um cargo dessa importância.

Na visão do político maranhense, o ocupante da principal cadeira do Palácio do Planalto não poderia jamais perder de vista a “liturgia do cargo”, um conjunto de regras de compostura e discrição que deveriam estar presentes em todas as suas aparições e ações públicas.

Como conta a jornalista Regina Echeverría em seu livro “Sarney – A biografia”, a expressão nasceu de uma visita que o então mandatário interino da República fez ao presidente eleito, Tancredo Neves, hospitalizado no Incor, em São Paulo, no dia 17 de abril de 1985, em decorrência de um tumor no intestino.

Sem poder entrar na redoma em que estava o paciente, por determinação médica, Sarney só o viu através do vidro.

“Ele me fez um sinal, eu mandei um beijo e disse para ele, sem que pudesse ouvir: está tudo bem, fique tranquilo, que nós estamos te esperando, torcendo para que você se recupere. E ele fez um certo gesto”, relatou aos jornalistas que o aguardavam na saída e perguntaram qual fora o tal gesto.

Foi nesse momento que surgiu a frase conhecida. “Não sei se a liturgia do cargo me permite repetir o gesto que ele me fez”, respondeu Sarney.

Tratava-se de um simples sinal de positivo.

Talvez os critérios e os cuidados do presidente do Plano Real com relação com o decoro tenham sido exagerados. Mas não custava nada ao capitão Jair Bolsonaro, depois do episódio desta quinta- feira, em que se deixou fotografar com a equipe que discutia o projeto de Reforma da Previdência, convidá-lo para um dedo de prosa e aconselhar-se sobre o assunto.

Sem dúvida alguma, a cena constrangedora, em que Bolsonaro aparece vestindo uma calça de jogging, camiseta pirata do Palmeiras sob um blazer e chinelos Rider, estarreceu milhões de brasileiros, entre eles muitos dos seguidores incondicionais do “mito”.

“Nossa, que absurdo o Bolsonaro quebrando a liturgia do cargo andando de camisa de palmeiras e chinelo! Não está à altura do cargo”, resumiu um deles nas redes sociais.

Como frisou Kiko Nogueira, aqui no DCM, o que está por trás desse espetáculo deprimente é o marketing do homem do povo, coisa do manual básico do populista sul americano.

Que teve, diga-se, seus grandes momentos, no passado, com as caspas cuidadosamente espalhadas pelo paletó de Jânio Quadros, que também comia sanduíches de mortadela nos palanques, em suas campanhas eleitorais em São Paulo.

Não resta dúvida, a julgar por precedentes (fotos lavando roupa, de café da manhã numa mesa sem toalha, cheia de migalhas, entre outras) a intenção do comportamento inusitado do atual presidente, é vender à população uma suposta simplicidade, que encanta os mais desavisados.

Há quem acredite. Também nas redes sociais, um bolsominion orgulhoso mandou ver uma comparação entre Bolsonaro a Pepe Mujica, o ex-presidente do Uruguai, famoso pela simplicidade. 

A comparação é estapafúrdia. Mujica mora no mesmo sítio há vinte anos, dirige um fusca cinquentenário e leva uma vida franciscana desde sempre.

Bolsonaro, ao contrário, que sempre apareceu de terno e gravata em seus compromissos sociais e políticos, é um homem que fez fortuna em sua trajetória como deputado federal, o que lhe permitiu comprar, entre outros bens imobiliários, uma casa num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Além dos conselhos de Sarney, um episódio em que se envolveu o presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, pode ajudar a se conscientizar dos prejuízos que a demagogia barata e sem noção podem trazer para a imagem de um homem público.

Certo dia, para espanto dos jornalistas que cobriam a Casa Branca, Johnson levantou sua camisa para exibir a cicatriz de uma recente cirurgia de vesícula. Celebrizada, a foto serviu de deixa para que o famoso cartunista Davi Levine, da revista New York Review of Books, criasse uma imagem, com um mapa do Vietnã, sobre o local da operação.

Para a revista Time, a foto e o caricatura de Levine capturaram não apenas a notória falta de refinamento do presidente americano, quanto a cicatriz indelével que a guerra deixara na sua carne na vida do país, minando o mandato presidencial e o respeito por Johnson.

Tomara que a Bolsonaro, portador de uma cicatriz alentada, decorrente das operações provocadas pelo atentado à faca que sofreu em Juiz de Fora, se lembre do exemplo do que ocorreu com Johnson, caso lhe ocorra a ideia de jerico de exibi-la ao vivo e em cores num dia desses.
Por Miguel Enriquez/Diário do Centro do Mundo.

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