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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A DIFÍCIL MISSÃO DE BOLSONARO

Por Rogerio Palhano   Postado  segunda-feira, novembro 19, 2018   Sem Comentários

Nordeste! Presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL) tem de reduzir a resistência na região e criar pontes com os governadores.

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) tem uma missão difícil a partir do ano que vem: contornar sua rejeição no Nordeste, driblar a resistência de lideranças e encontrar interlocutores na região cuja maioria votou no candidato adversário, o petista Fernando Haddad.

Para especialistas ouvidos pelo O POVO, os desafios à espera do capitão da reserva consistem principalmente na falta de canais efetivos abertos com prefeitos e governadores nordestinos, que, nesta semana, deram mostra da postura que podem adotar ao esvaziarem encontro com o sucessor de Michel Temer (MDB) em Brasília.

Dos nove chefes de Executivo, quatro são do PT (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte), um do PCdoB (Maranhão), dois do PSB (Pernambuco e Paraíba), um do PSD (Sergipe) e um do MDB (Alagoas) - nenhum deles simpático ao nome do PSL.

Caso deseje aprovar agenda reformista no Congresso, na qual se inclui a da Previdência, Bolsonaro terá de necessariamente chegar a entendimento com esses gestores.

Professor do programa de pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Francisco Farias afirma que a geografia política do pós-eleições é uma desvantagem para Bolsonaro.

Segundo ele, as regiões Sul e Sudeste concentram o segmento no qual o presidente eleito é mais expressivo: trabalhadores cuja renda varia de dois a cinco salários mínimos, faixa que não teria prosperado durante os governos Lula e Dilma Rousseff.

"Quem menos ganhou nesses anos foi essa classe média baixa para a qual o discurso do Bolsonaro se voltou na campanha: redução de carga tributária, ênfase no empreendedorismo e o combate à corrupção", avalia. "No Nordeste, por sua vez, estão esses eleitores que dependem mais dos programas sociais."

Se quiser se aproximar desse contingente, o futuro inquilino do Planalto vai ter que "abrir interlocução com lideranças da região para fazer essa mediação". Nessa hipótese, a melhor saída para o presidente é a segurança, sugere o professor. "É um tema vital no diálogo com o Nordeste."


Cientista político da Universidade Federal do Ceará (UFC), Uribam Xavier concorda que essa é a "forma inteligente de se aproximar do Nordeste: traçando uma agenda de desenvolvimento".

Nesse receituário, o analista menciona a conclusão da Transnordestina e do conjunto de obras previstas ainda no pacote de infraestrutura para a Copa do Mundo, além da questão da escassez hídrica.

"É a melhor maneira de um presidente ter o reconhecimento da população", projeta Xavier. "Como Lula construiu essa base social aqui? Com Bolsa Família, mas também com escolas técnicas no Interior e universidades federais."

Bolsonaro conseguirá isso? "Ele não sabe o que pretende fazer com o Brasil. O problema do Mais Médicos, por exemplo, nasceu de uma declaração desastrosa sobre Cuba", diz, referindo-se ao encerramento da participação da ilha caribenha no programa, anunciado nesta semana após desavença.

A socióloga Dulce Pandolfi também questiona a capacidade de Bolsonaro de estabelecer pontes com o Nordeste.

Integrante do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV, a professora acredita que o militar tentará compensar a falta de apoio na região com o peso do Sul e Sudeste, notadamente de Rio, São Paulo e Minas.

"Para um projeto que não tem preocupação com desigualdades regionais nem em incluir socialmente, então o problema da resistência do Nordeste é menor para ele", argumenta.

OS OBSTÁCULOS

Resistência do eleitorado da região, que votou em maioria no então candidato Fernando Haddad (PT), adversário de Jair Bolsonaro (PSL) na eleição presidencial - o pesselista não obteve vitória em nenhum dos nove estados nordestinos

Dos nove governadores eleitos no Nordeste, nenhum é abertamente simpático ao presidente eleito. Desses chefes de Executivo, quatro são petistas, partido cuja base social ainda se encontra majoritariamente nessas unidades

Parte das declarações polêmicas ou ofensivas de Bolsonaro no curso de sua vida parlamentar também dizem respeito a nordestinos e ao programa Bolsa Família, sobre o qual o candidato precisou recuar no segundo turno, quando prometeu ampliar o Bolsa Família, oferecendo um 13º salário

Encerramento do acordo de cooperação com Cuba no programa Mais Médicos, que atende principalmente municípios do semiárido nordestino nos quais o acesso a serviços de saúde é precário. Bem avaliado, o programa foi criado há cinco anos. A suspensão dessas vagas deve ter impacto em todos os estados da região, que vão sentir seus efeitos, gerando pressão sobre os prefeitos

Falta de capilaridade do PSL, partido cuja representação ainda é acanhada mesmo nas capitais. Em Fortaleza, por exemplo, a legenda existe como uma comissão provisória. No Interior, a maior parte dos municípios sequer tem uma executiva da sigla, que tem o desafio de se preparar para a disputa eleitoral de 2020

OS TRUNFOS

O presidente eleito pode colocar em pauta uma agenda de expansão do agronegócio, sobretudo a partir da conclusão da Transnordestina, obra crucial para o aumento dos investimentos do setor na região. Segmento importante na sustentação da vitória de Bolsonaro nas urnas, o agronegócio deve ter peso na definição das prioridades

Outro ponto importante é a segurança, tema sensível para o eleitorado nordestino. Os estados da região registraram aumento significativo da ação de facções criminosas. Com elas, cresceu também o índice de homicídios. O presidente eleito, cujo discurso de campanha enfatizou a guerra contra a violência, deve potencializar essa bandeira

Assunto ainda relacionado à segurança, Bolsonaro pode investir em centros de inteligência, aproveitando a implantação de equipamento do tipo no Ceará, previsto para dezembro deste ano. Concebido sob o governo de Michel Temer (MDB) depois da série de chacinas no Estado em 2018, entre elas a das Cajazeiras, que deixou 14 mortos, o centro de inteligência seria uma resposta mais efetiva ao problema dos homicídios dada por Bolsonaro

A questão hídrica é mais um tema que pode facilitar a entrada de Bolsonaro no Nordeste. O tópico foi bastante explorado pelo candidato durante a corrida presidencial. Na disputa, o militar chegou a dizer que iria importar tecnologia israelense na tentativa de amenizar a escassez de água no Nordeste. Nesse ponto, a conclusão das obras de transposição do Rio São Francisco constitui a principal demanda da região

Na relação com governadores de outros partidos, como PT, Bolsonaro poderá mostrar, por exemplo, que não faz distinção entre aliados e opositores ao governo. Presidente eleito que sempre criticou excesso de ideologia nos governos do PT, o militar pode estabelecer um novo patamar de relação entre os entes federativos, sem condicionar o repasse de recursos à construção de maiorias no Congresso a fim de aprovar reformas

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