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domingo, 19 de agosto de 2018

1995; HOMEM QUE NEGOCIOU DEVOLUÇÃO DE MOTO E ARMA ROUBADAS DE BOLSONARO CONTA DETALHES

Por Rogerio Palhano   Postado  domingo, agosto 19, 2018   Sem Comentários


Testemunha conta que entregou os pertences ao deputado após negociar com um traficante.


Vanderley Cunha estava em pé, parado ao lado da motocicleta roubada do deputado Jair Bolsonaro. Era manhã de sexta-feira 7 de julho de 1995. 

A pistola Glock de calibre .380, que também havia sido levada por dois ladrões junto a um semáforo da Rua Torres Homem, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro, estava guardada no bagageiro interno. 

Três dias depois do assalto sofrido pelo deputado há 23 anos, Cunha aguardava a chegada da polícia. Conforme havia sido combinado, a entrega do material roubado deveria ocorrer na Praça Roberto Carlos, no fundo da favela de Acari, longe das bocas de fumo à época comandadas por Jorge Luís dos Santos.

Descrito em uma reportagem publicada na edição de ÉPOCA da semana passada, o assalto sofrido por Bolsonaro foi lembrado durante o programa Roda viva, da TV Cultura, há três semanas. 

Ao ser questionado sobre o episódio, Bolsonaro citou o então chefe do tráfico em Acari: “Nós recuperamos a arma e a motocicleta e por coincidência — não é? — o dono da favela lá de Acari, onde foi pega… foi pego lá, lá, estava lá, ele apareceu morto, um tempo depois, rápido”.

O assalto acabou aproximando o deputado do general Nilton de Albuquerque Cerqueira, que na época ocupava o cargo de secretário de Segurança do Rio. No dia seguinte ao crime, Cerqueira designou 50 policiais para buscarem os itens do roubo. 

Ele dirigiu o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de Salvador, órgão de repressão política da ditadura que em 1971 foi responsável pela morte do guerrilheiro Carlos Lamarca no interior da Bahia.

Nos oito meses que se seguiram ao roubo a Bolsonaro, as favelas da Zona Norte foram alvo de uma megaoperação organizada pela Secretaria de Segurança. 

Sob a rédea do general, o índice de homicídios no Rio registrou o maior crescimento da década de 90 — e, em março de 1996, o traficante Jorge Luís dos Santos foi encontrado morto, enforcado com a própria camisa numa cela da antiga Divisão de Recursos Especiais da Polícia Civil, na Barra da Tijuca.

No sábado seguinte à publicação, a reportagem foi criticada por Bolsonaro na internet. Às 5h49, o presidenciável publicou o link para a página de ÉPOCA no Twitter, sob o seguinte comentário: “Fui assaltado em 1995. A imprensa está indignada porque o chefe do morro onde a moto e a pistola foram encontradas apareceu morto um tempo depois…”. 

Em 146 caracteres, a mensagem tinha sido compartilhada 2.750 vezes na rede social, curtida por 16.267 pessoas e comentada por outras 1.800 até a tarde da segunda-feira dia 13. Reproduzido às 9h47 no Facebook, o tuíte acumulou mais 4 mil compartilhamentos, 51 mil curtidas e 8.800 comentários. A maioria seguia a linha “bandido bom é bandido morto”.

Dez horas depois do tuíte de Bolsonaro, o filósofo e pesquisador Pablo Ortellado analisou o fenômeno e anunciou no Facebook ter descoberto que o post estava em primeiro lugar em número de interações na internet entre todas as publicações de todas as 750 páginas sob análise do Monitor do Debate Público no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP). 

“A reação dele (Bolsonaro) pode ter sido assustadora, mas ainda mais assustadora é a popularidade de seu gesto”, comentou o filósofo.

O tratamento dado pelo deputado ao traficante Jorge Luís dos Santos, no entanto, foi aparentemente bem menos ríspido do que o presidenciável fez parecer no Roda viva e no Twitter, segundo Vanderley Cunha, o responsável por negociar com Bolsonaro a devolução dos pertences que haviam sido roubados. 

Poeta, animador cultural e então vice-presidente da Associação de Moradores do Parque Acari, Cunha é um homem baixo e corpulento de 63 anos, tem a barba branca por fazer e os cabelos raleados no topo da cabeça e na testa. 

Na segunda-feira dia 13, vestia uma camisa xadrez por cima de uma camiseta de time de futebol verde-limão enquanto narrava como, de fato, segundo ele, a moto e a arma do deputado haviam sido recuperadas.

Conhecido como Deley de Acari, vive hoje a 80 quilômetros da favela. Mudou-se depois que policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (Core) assassinaram um idoso em seu lugar, contou. 

Amigo da vereadora Marielle Franco, que conheceu na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, o ativista integra o coletivo Fala Akari, um grupo formado por militantes de direitos humanos.

Defensor dos direitos humanos e ex-militante do PT, Cunha mora em uma quitinete onde cumpre um protocolo de proteção a testemunhas. Recebe bolsa-auxílio de organizações não governamentais estrangeiras de defesa dos direitos humanos, como a inglesa Anistia Internacional e a irlandesa Front Line Defenders. 

Ele testemunhou contra policiais violentos, contribuiu para um relatório da Anistia Internacional sobre letalidade policial e atualmente é testemunha do assassinato de uma menina de 9 anos por policiais cariocas. Acabou jurado de morte também por isso.

Naquele dia, na década de 90, na Praça Roberto Carlos, segundo o relato de Cunha, os policiais apareceram em dois carros. De um, desceu o coronel Alves, comandante do 9º Batalhão da PM, fardado. Do outro, três policiais do serviço reservado da PM, chamados P2, todos à paisana. A arma de Bolsonaro foi recolhida pelo coronel. 

A moto já não era a mesma que havia sido adquirida em 1994 pelo então deputado em primeiro mandato. Os pneus estavam carecas: um dos ladrões havia vendido os originais, trocando-os por outros mais antigos. 

“O capitão Décio montou nela e foi embora para o batalhão”, lembrou o ativista. Assim, quase em silêncio, terminou a ação em que os pertences de Bolsonaro foram recuperados.

O coronel Alves era benquisto pelos moradores de Acari. “Fazíamos café da manhã com o coronel uma vez por mês”, disse Cunha. “Toda corporação policial tem uma tendência, de direita, de esquerda”, continua. “O coronel Alves era mais na linha de esquerda, mais ligado à política brizolista.”

A ideia de telefonar para o coronel Alves para negociar a devolução da moto e da arma de Bolsonaro havia partido de uma liderança comunitária do Morro do Coroado. Dias antes, o chefe de Acari, Jorge Luís dos Santos, tinha visto na televisão que um militar havia sido roubado. Notou que a motocicleta e a pistola descritas na TV eram as mesmas que haviam sido oferecidas por um devedor. 

“O cara que roubou a moto devia alguma coisa para o Jorge Luís”, contou Cunha. O traficante já tinha aceitado a oferta em troca do perdão de R$ 5 mil em dívidas quando procurou saber se a presença dos pertences do deputado representava risco de invasão militar na comunidade. 

“O Jorge ficou temeroso de que se descobrisse que a moto estava lá e o Exército fosse lá buscar”, contou Cunha. “Resolveu comprar a moto e a arma e devolver para ele. Ficou com medo de o Bolsonaro vir na favela com uma tropa.”

O vice-presidente da associação de moradores conheceu o traficante Jorge Luís dos Santos quando o governo Brizola decidiu enviar um helicóptero para sobrevoar os barracos e traçar a cartografia da favela. 

“Pediram para eu ir avisar ao chefe do morro que o helicóptero ia voar baixo”, disse. Segundo ele, Santos pertencia a uma geração de traficantes que não queria atrair militares para a comunidade. “Ele era estudante de enfermagem, era muito inteligente e tinha ideias boas, até pela escolaridade e bagagem cultural”, relatou. 

“O Cy de Acari e o Tonicão, traficantes da geração anterior à dele, criaram uma escola, optaram por ter uma relação mais assistencialista com a comunidade.”

Depois de adquirir os pertences de Bolsonaro, o chefe do morro quis saber de Cunha quem era o deputado Bolsonaro que havia flagrado na TV — e se achava melhor devolver tudo a ele. Cunha assentiu. 

“Ele perguntou se eu conhecia o Bolsonaro, se sabia quem era, falou que tinha visto na TV que a moto do deputado havia sido roubada”, lembrou. Ficou acertado: o traficante mandaria trazer a motocicleta e a arma, com o pente carregado. E Cunha ficaria incumbido de fazer o contato com Bolsonaro e com o batalhão.

No dia seguinte ao resgate da Honda Sahara de 350 cilindradas e da Glock calibre .380 do deputado, o jornal O Globo noticiou que “a dica do paradeiro dos pertences do deputado foi passada por um informante”. 

O informante era Cunha. O jornal A Notícia informava que os itens roubados haviam sido recuperados mediante intenso confronto. Ao ler a matéria, o traficante Santos mandou chamar Cunha. Queria que o vice-presidente da associação de moradores fizesse contato com Jair Bolsonaro e lhe contasse a verdadeira versão da história.

Cunha então telefonou para o gabinete da vereadora Rogéria Nantes, à época mulher de Bolsonaro, e foi orientado por uma assessora a ligar às sextas-feiras, quando Bolsonaro costumava aparecer por lá. 

Deu certo. “Liguei para ele e falei que eu estava ligando porque o rapaz que tinha comprado a moto, recuperado a moto para ele, estava preocupado com o que havia saído no jornal e que gostaria que o deputado ficasse sabendo a história verdadeira”, afirmou.

Segundo Cunha, Bolsonaro questionou se era preciso pagar e como a moto seria devolvida — falou pouco, mas ele se lembra de três tópicos da conversa. “Bolsonaro comentou a notícia do tiroteio. Disse: ‘Bem que eu achei a versão do coronel meio fantasiosa’”, contou. 

“Depois disse que eu podia falar lá para o rapaz — ele chamou o Jorge Luís de rapaz — que estava tudo bem, que acreditava em nossa versão, e perguntou se na próxima campanha eleitoral ele podia passar lá”, prosseguiu. 

“E disse: ‘Sempre tive uma visão muito diferente de bandido, minha cabeça agora mudou um pouco’.” Cunha respondeu que a entrada na favela era livre e que nunca houve problema em fazer campanha por lá.

Bolsonaro, segundo Cunha, disse obrigado, mandou agradecer ao traficante Jorge Luís dos Santos e informou que a partir de então “ia ter uma imagem mais positiva de bandido”. 

“Nunca vi o deputado pessoalmente”, disse Cunha. “Mas ele sabe que foi tudo combinado.”ÉPOCA

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