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sábado, 14 de julho de 2018

SOLTA OU NÃO SOLTA; O DOMINGO DA FAMÍLIA DE LULA

Por Rogerio Palhano   Postado  sábado, julho 14, 2018   Sem Comentários


Quando a notícia sobre a ordem para soltura do ex-presidente Lula começou a pipocar nos celulares na manhã
do último domingo, Andrea, uma das sobrinhas do ex-presidente, correu para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, São Paulo. 

“Já tinha o movimento, a gente tinha de partir para cima. É articulação. Meu tio nasceu disso, entendeu?”, disse a jovem, que está desempregada e pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado, porque teme repercussão em sua atual busca por emprego.

Nas cinco horas e 16 minutos que se passaram entre a divulgação do despacho pela soltura, assinado pelo desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) Rogério Favreto e sua revogação pelo relator da Lava Jato no mesmo tribunal, João Pedro Gebran, a militância petista escolheu como cenário da retomada de mobilização a sede do sindicato. 

Foi lá que se deu a resistência à prisão e a apoteótica despedida de Lula antes de ser levado pela Polícia Federal para a carceragem em Curitiba, em abril. Se de lá havia saído, para lá deveria voltar — segundo a estratégia que busca retomar as atenções para o ex-presidente.

Para seu desgosto, o irmão mais velho de Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, de 77 anos, não pôde sair para o sindicato. Teve de ficar em casa, no modesto sobrado onde vive há mais de 40 anos, em São Bernardo. 

Há pouco mais de dois anos ele teve de amputar a perna esquerda. Também faz quimioterapia para combater um raro tipo de câncer que ataca os vasos sanguíneos. Desde que pegou uma gripe após uma das sessões, passou a evitar visitas. Com dificuldades para sair de casa, está proibido pelo médico de viajar para Curitiba para visitar o irmão.

Quem se desloca para representar os irmãos nas visitas em Curitiba é José Ferreira da Silva, o Frei Chico, responsável por introduzir Lula no mundo do sindicalismo, e Maria da Silva Moreno, a Maria Baixinha, xodó do ex-presidente. 

Nem sequer tiveram tempo para se empolgar com a possibilidade de ver o irmão solto no último domingo, segundo os parentes. 

Mesmo sentimento do sobrinho Edison Ignácio da Silva, de 54 anos, que mal reagiu ao ser informado pelo filho, durante a manhã, quando fazia um exame médico. “Vamos aguardar o que vai acontecer”, disse, ao ler a notícia.

Na noite da sexta-feira, enquanto o Brasil ainda secava as lágrimas da eliminação na Copa do Mundo da Rússia, após a derrota para a Bélgica, os deputados federais petistas Paulo Teixeira, Wadih Damous e Paulo Pimenta protocolavam um pedido de habeas corpus para libertar Lula no TRF-4. 

Estava endereçado ao plantonista Rogério Favreto, único entre os 27 desembargadores do tribunal a demonstrar simpatia pela tese de que o ex-presidente era alvo de perseguição. O trio sabia o que fazia. Filiado ao PT entre 1991 e 2010, ano em que foi indicado por Dilma para o TRF-4, Favreto trabalhou nos ministérios da Casa Civil e da Justiça no governo Lula. 

Ele determinou a soltura do petista sob o argumento de que havia surgido um fato novo: Lula era pré-candidato à Presidência e sua prisão gerava “grave falta na isonomia do processo político em curso”.

Seguiu-se uma disputa, na qual outros três magistrados atuaram para desfazer a decisão de Favreto. O juiz Sergio Moro declarou ser Favreto “autoridade absolutamente incompetente” para decidir sobre a questão e interferiu para que a Polícia Federal não cumprisse a ordem. 

O relator da Lava Jato no TRF-4, João Pedro Gebran, brecou a decisão de Favreto. O presidente do TRF-4, Thompson Flores, encerrou o caso, já no início da noite. 

“A matéria não desafia análise em regime de plantão e presente o direito do desembargador relator em valer-se da avocação para preservar competência que lhe é própria, determino o retorno ao seu gabinete.” 

No prólogo, a presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministra Laurita Vaz, classificou o episódio como “tumulto processual sem precedentes na história do Direito brasileiro.” Chamou Favreto de “autoridade incompetente” para julgar o caso pela “situação precária de plantão judiciário”.

Edison, o sobrinho de Lula, analisou o dia turbulento que envolveu o tio. “Depois de tudo o que aconteceu, eles não iam simplesmente libertar o Lula. Se uma ordem judicial existe para ser cumprida, o delegado (da Polícia Federal) tinha de ter cumprido. O problema é o circo que virou agora. Quando a Justiça tem um lado, as coisas caminham assim”, reclamou. Seu tom é semelhante ao de outros parentes do ex-presidente ouvidos nesta semana por ÉPOCA. 

Sem falar sobre as descobertas da Lava Jato, todos relatam inabalado orgulho pelo ex-presidente, desconfiança em relação às investigações e a tristeza por vê-lo preso.

Nos últimos anos, a maior parte dos irmãos do ex-presidente — e o próprio, inclusive — enfrentou batalhas contra o câncer. No caso de seu pai, Vavá, Edison cita os episódios recentes como agravadores de sua condição. 

“Todo este processo político foi dado depois de um golpe. A partir daí, as coisas foram se sucedendo. Meu pai vinha se recuperando de um problema de saúde. Com tudo o que aconteceu, ele entrou em queda livre, ficou angustiado. Esse assunto atinge a todos, de forma diferente”, afirmou.
Outra sobrinha de Lula, Andrea também comentou: “Imagina uma pessoa com quem você tem uma ligação desde pequeno. De repente, você não pode mais estar com ela, estar presente na vida. Se coloque no lugar, independentemente do que você acredite (sobre os processos de Lula)”, disse ela, mencionando o padrão de vida mantido pelo tio como algo a sugerir sua inocência. 

“A gente sabe o que é ter (posses e bens) e o que é não ter. A gente convive com eles. Sempre estamos juntos”, argumentou. A eleição de Lula e os 12 anos de PT no poder não representaram mudança nos hábitos da família, que se divide entre a periferia de São Bernardo e a Zona Leste da capital paulista.

Depois da morte recente de irmãos mais velhos (Jaime e Marinalva), Vavá, Frei Chico, Maria Baixinha e Tiana se encontram com regularidade. “É essa relação que dá força para os dias melhores e também para os piores”, resumiu Edison. 

Há 15 dias, domingo de Croácia versus Dinamarca na TV, um café da tarde virou festa junina sem fogueira na casa de Tiana, reunindo cerca de 20 familiares do ex-presidente, com direito a batata-doce, pinhão, paçoca, doce de leite e, não poderia faltar, jogo de bingo. Entre tios e primos, naquela tarde foram vários vencedores. Em geral distantes desse núcleo da família, os filhos de Lula não compareceram.

Interceptações telefônicas pela Lava Jato de números usados pelo ex-presidente registraram no início de 2016 uma conversa do investigado com Vavá, quando Lula já era alvo de inquéritos. 

Vavá mantinha um tom de deferência e respeito ao irmão, mas o bom humor imperava na relação. “Me ligou hoje a diretora do (hospital) Sara Kubitschek. Mandei aquela tua foto, ela me ligou hoje, pediu a tua idade, eu falei 82 anos, é isso?” “Quanto?”, perguntou Vavá a Lula, que repetiu: “82”. “Vá se danar, rapaz, vá se ferrar”, reagiu Vavá, em tom de deboche. “Quanto é, c...?”, pergunta o irmão, com ar sério. “É 76, p...”, ele respondeu. “Então falei certo, falei 76”, disse Lula, que continuou na brincadeira: “Falei que você estava com 120 quilos...”. O ex-presidente prometia uma cadeira de rodas para o irmão.

Conhecida pelo bom humor, pelo frango que prepara e pela predisposição para festas, o tempo fecha com Maria Baixinha quando o assunto são os problemas de Lula com a Justiça. 

“Você me desculpe, mas sobre esse assunto não vou falar”, disse, alterando o tom de voz. Frei Chico vai pelo mesmo caminho. “Estou muito chateado com o que está acontecendo. Desculpa, meu jovem. Prefiro não falar”, respondeu. 

A sobrinha Andrea explicou a opção pelo silêncio. “A gente tem nossa vida própria, ninguém vai bater na porta para saber da vida da família de outros presidentes. Na gente, só vem carcada. Só tomamos paulada. Se minha família estivesse assim tão bem, acha que ia morar aqui, na periferia?”

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