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segunda-feira, 23 de abril de 2018

A MARCHA DA INSENSATEZ

Por Rogerio Palhano   Postado  segunda-feira, abril 23, 2018   Sem Comentários



Reportagem do O POVO baseada em relatório do Metrofor, concluiu que a companhia tomou prejuízo de R$ 167,34 milhões em 2017. 
O valor é 10,6% maior que o déficit de 2016 ( R$ 151,24 milhões). No total, em dois anos, o “preju” chega a R$ 318,58 milhões. Fazendo uma conta bem simples, o Metrofor devora uma média de R$ 436 mil do contribuinte a cada santo dia. São R$ 13,27 milhões todo mês.

Bom, pode-se argumentar que os metrôs dão prejuízo mundo afora e que sempre vão precisar do subsídio estatal para funcionar mesmo que estejam sob a gerência de concessionário privado. Não é bem assim, não.

O Metrofor pertence ao Estado. Suas origens remontam à década de 1980. Em 1997, recebeu o batismo de Metrofor, quando iniciou as licitações para a linha Sul. Um consórcio formado por gigantes nacionais e estrangeiros ganhou a concorrência em que só havia dois na disputa. Desde então, o sistema virou um saco sem fundo e uma obra sem fim.

A coisa toda foi vendida como a solução para o transporte do povo. Balela. Tratava-se de uma obra que custava os olhos da cara do contribuinte e que transportaria uma quantidade ínfima de usuários.

Na época, como colunista de política deste jornal, apontei seguidamente que o Metrofor não resolveria o problema e era caro demais para uma cidade e estado pobres. Havia soluções bem mais baratas e sob a responsabilidade da iniciativa privada.

Conversei sobre o tema com os governantes de então. Na média, a resposta era: havia dinheiro disponível (empréstimos de instituições financeiras) e era necessário começar pensando no futuro da metrópole.

Sai governante, entra governante e o futuro é o lamentável presente que hoje vemos. Uma fortuna de bilhões enterrada, um saco sem fundo, baixíssimo retorno social e mais problemas que soluções para o transporte.

Efeito colateral: o Metrofor se tornou um notável cabide de empregos de parentes de políticos, afilhados e afins. Com raras exceções, alguns desses nomeados conheciam algum “beabá” do ramo.

Segundo o relatório, o metrô de Fortaleza, o trem para Caucaia e os “metrôs” de Sobral e Juazeiro transportaram juntos 12 milhões de passageiros em 2017. Opa. Parece bom, não é? Até seria, se fosse verdade.

Não são 12 milhões de pessoas. Na realidade, o sistema todo vendeu 12 milhões de passagens para um faturamento de R$ 20 milhões no ano, com custo de R$ 170 milhões.

A mágica do relatório é a seguinte: 33 mil passagens por dia, multiplicado por 30 dias, multiplicado por 12 meses. Pronto: chega-se aos ilusórios 12 milhões de passageiros.

Na verdade, como todo passageiro que vai costuma voltar, deve-se considerar que pouco mais da metade desses 33 mil passageiros usam o sistema a cada dia. Ou seja, no máximo 20 mil ilustres usuários cotidianos.

Para se ter a noção da insensatez, o sistema de ônibus de Fortaleza contabiliza 1,3 milhão de passagens/dia. Ou seja, de 650 a 750 mil pessoas entram no coletivo todo dia para ir e voltar. Isso só o urbano. Considerando o metropolitano, deve-se acrescentar mais 20%.

Ou seja, os trens levam cerca de 3% dos passageiros transportados pelos ônibus de Fortaleza. É assombroso. Uma fortuna de R$ 1,9 bi (não atualizados) já investidos no sistema que consome R$ 170 milhões ao ano, servindo a uma parcela ínfima da sociedade.

A marcha da insensatez vai longe. Os VLTs de Sobral (mil passagens/dia) e Juazeiro (1,4 mil/dia), com tarifa de apenas R$ 1,00, transportam só 900 cidadãos a cada dia. 

É muito dinheiro investido e prejuízo para um resultado medíocre. Em Sobral, ainda há algo bastante singular: considerando saída e destino, chega-se mais rápido de carro que de VLT.

Há muitos outros problemas como falhas de projetos, tatuzões enferrujando e os novos investimentos planejados que vão aumentar o rombo. Isso sem falar no VLT Parangaba-Mucuripe que se arrasta com seus muros no meio da cidade.

Cidades de referência como Curitiba, Bogotá e Cali optaram pelos baratos e tradicionais ônibus. O investimento público é baixo e a operação é privada. Mesmo assim, embora o sistema seja bem avaliado em toda pesquisa já feita, costuma ser maltratado pelos gestores, gratuidades e, agora, a concorrência dos aplicativos que se mantém livres de impostos.

Para acabar com as chances de uma cidade, é fácil. Basta destruir seu sistema de transporte. O caos tomará conta.

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